PERFIL DOS ALUNOS PARA O SÉCULO XXI


Este é o meu contributo para a discussão sobre a definição de um perfil de competências que se espera que os alunos adquiram uma vez superados 12 anos de escolaridade obrigatória. Ou até a pessoa ter 18 anos. Porque a partir dessa idade, com o 12º ano completo ou não, já não conta. Expira a validade. Au revoir…

“A educação e a formação são alicerces fundamentais para o futuro das pessoas e do país” (lê-se aqui: http://www.dge.mec.pt/perfil).

Sim. Mas primeiro, arriscaria:

– As relações de qualidade, com cuidadores sensíveis, disponíveis e cujo papel de cuidadores é entendido e vivido de forma absolutamente essencial, são os alicerces fundamentais para o presente das pessoas e do país e para toda e qualquer possibilidade de educação, de formação, de aprendizagem.

(a) Não assegurar os alicerces dos alicerces, é fazer castelos de areia, num dia de muito vento e calor.

“Uma educação para todos exige que se considere a diversidade e a complexidade como factores preponderantes ao definir um perfil de saída no final de 12 anos de escolaridade obrigatória.” (Consultar o link, acima indicado)

  • “Todos” e “diversidade” e “complexidade” e “perfil de saída” e “obrigatório”, tudo numa frase só é ousadia!

Não acredito em educação para todos. Educação e escolarização não são a mesma coisa e, por vezes, talvez vezes demasiadas, uma faz mal à outra, como coisas que mutuamente se excluem.

Quando se organiza a coisa no formato “todos”, perdem-se partes importantes. Um  perfil é uma silhueta. O “todos” tem uma silhueta, que depende das partes, da forma como as partes de ligam e se movimentam. A silhueta não permite grandes desvios, grande diversidade, caso contrário, cai qualquer coisa.

O “para todos”, por muitos esforços que se façam, alguns com resultados bastante positivos, não tem corrido assim tão bem. Sobretudo para aqueles todos que são muito mais diferentes que os outros todos.

Os todos que são tão distintos na sua totalidade, que até é preciso que, no contexto desta escola de todos e para todos, se lhes dê um nome especifico. Porque sem os nomes específicos, já não lhe chegam as ferramentas de que precisam, para se manterem assim nesse todo uniforme-disforme.

Todos os dias chegam histórias desses todos díspares. Como se a escola para todos fosse afinal uma torneira que lhe passou a rosca e que pinga – pinga – pinga – um a um.

Pop. O autista.

Pop. O de atenção em défice.

Pop. O mais agitado do que seria desejável segundo as directrizes do adulto (e que assim faz o todo perder o equilíbrio).

Pop. O que combina atenção em défice + excesso de actividade.

Pop. O Asperger.

Pop. O disléxico.

Pop. O discalculista.

Pop. O que é só refilão.

Pop. O que não faz os trabalhos de casa.

Pop. O que não consegue aprender a ler até Dezembro.

Pop. O outro que chora porque tem saudades de casa.

Pop. O que não se interessa por aquele assunto que alguém decidiu que deveria ser do interesse de toda e qualquer criança porque todas as crianças são uma totalidade de crianças.

Pop. Muitos. Há muitos. Muitos todos que não se encaixam, que não se incluem e que vão saindo. Até que têm 18 anos. E pronto. Já não são problema do todo da educação para todos.

Também não acredito que se possa promover a democracia numa estrutura que se organiza de forma obrigatória, ou compulsiva, que me remete para o lado mesmo patológico da coisa. Autonomia forçada.

Acredito que até se possa pensar que a escola possa ser de acesso universal. Mas acredito, ao mesmo tempo, que não se apanham moscas com vinagre.

Acredito que as pessoas saudáveis e felizes são naturalmente motivadas e empenhadas e capazes e, rodeadas de outras pessoas, de todas as idades, não lhe cortem essas raízes, e serão hábeis em conduzir, de forma autocéfala e significativa – e democrática – o seu próprio projecto de vida, que inclui muito mais do que a vertente educativa e formativa e, claro, muito, muito, muitíssimo mais que a migalha escolarizadora.

“Num mundo de incertezas e em rápida mudança, importa formar cidadãos autónomos, responsáveis e activos, aptos a interagir numa era global e do conhecimento.” (mesmo link)

Mais uma vez, com tantas incertezas, impressiona-me a ideia do perfil.

Mas mais ainda, cresce-me uma enorme curiosidade para saber como é que com a matéria prima que temos nas escolas (e refiro-me à crescida), com a natureza de obrigatoriedade da escola (que determina desde os ritmos circadianos da pessoa-aluno, passando pela decisão de que conhecimentos, por que ordem, durante quanto tempo e de que forma, o que decide depois o modo como se processa a verificação do conhecimento), neste contexto, dizia, estou curiosa sobre como se conseguirão cumprir estes objectivos.

Onde é que está o espaço para a autonomia? Como é que se operacionaliza a responsabilização e a conduta activa, a aptidão pata interagir no global? Como é que se aprende a viver na sociedade, crescendo isolado da sociedade. A vida real. Fora dos livros. As relações. O dia-a-dia.

E também me assusta. Não apenas a compulsão. Mas a obsessão. A resistência. O vício, a mania, a teimosia, a incapacidade para deixar ir uma coisa que já cheira a mofo há tanto tempo que só não lhe crescem cogumelos porque os cogumelos agora até estão na moda e há-os de todos os feitios e sabores e até maneira de desenvolver a sua própria cultura no privado e conforto do lar.

Talvez tenha qualquer coisa que ver com esta coisa das modas. Talvez com o momento das séries televisivas. Qualquer coisa Netflix. A escola é um zombie. E os zombies estão em alta.

Tomara que passe depressa.

Inês Peceguina