Crónicas – Parentalidade Consciente ou Parentalidade Indulgente

Crónicas – Parentalidade Consciente ou Parentalidade Indulgente

On Janeiro 16, 2017, Posted by , In Crónica, By , With No Comments
Ensaios do i de brincar.
Por Inês Peceguina.


PARENTALIDADE CONSCIENTE OU PARENTALIDADE INDULGENTE?

– A Questão da LIBERDADE e dos LIMITES no Exercício de Fazer CRIANÇAS de QUALIDADE

 

 

“A ideia de limites não é, por si só, contraditória à ideia de liberdade. A diferença entre uma comunidade ou sociedade livre e uma tirânica (…) não reside no facto de uma ter limites e a outra não. A diferença, é que numa sociedade livre, encontramos facilmente os limites, sabemos onde estão enquanto que, numa tirânica, nunca poderemos ter a certeza.”

John Holt  in “Freedom and Beyond”

 

(“The idea of limits is not itself opposed to the idea of freedom. The difference between a free community or society and a tyranny (…) is not that one has limits while the other does not. It is that in a free society, you can find out where limits are; in a tyranny, you can never be sure.”)

 


LIMITE. Do latim “
limes” + “-itis”, sabe-me bem a descrição dos limites enquanto “momentos ou espaços que correspondem ao fim ou ao início de qualquer coisa e, ainda, da matemática, a quantidade fixa de que uma variável se aproxima indefinidamente, sem nunca a alcançar.” (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, aqui).

 

As crianças precisam de limites.

As crianças precisam de liberdade.

A liberdade, nestas concepções, a sugerida por John Holt e também a da origem das palavras, que aqui exportei, contém em si, dentro de si, é contingente a ou, à, existência de limites.

Os limites são o que, ou através do que, se permite o desenhar da liberdade.

 

LIBERDADE. Aqui (Liberdade), encontrei sobre a palavra liberdade e a sua história, alguma confluência com a ideia de limites. Quando do Grego – “eleutheria”, significava liberdade de movimento. A possibilidade do corpo para o movimento sem restrições, quer se trate de restrições intrínsecas ao próprio corpo (o corpo débil e, arriscaria, o espírito débil que também aprisiona), ou fora deste, por imposição de um outro.

LIBERDADE. Do alemão – “freiheit” – e a partir de onde nasce a palavra anglo-saxónica – “freedom” – liberdade quer dizer “pescoço livre”, aludindo aos grilhões que prendiam os pescoços dos escravos, impedindo o movimento livre. Aproxima-se assim, da origem grega. Contudo, a sua ausência, é apenas atribuída ao outro, o outro que impede o movimento. Não refere o limite que vem de dentro, seja do corpo ou da mente.

Por fim, a palavra – “libertas” – a partir do qual nasce também a palavra do latim que significa “independência”, está mais próxima da vertente política, designando o exercício do domínio e do poder sobre o outro, sobre o outro na forma de um grupo, que limita e constrange o seu movimento, a sua possibilidade, o seu ir e vir. Próximo da escravidão, que a antecede.

Esta última, mais Ocidental.

Talvez, por isso, o afecto mais imediato que a palavra nos traz; e que é o de LIMITE como CONTRADIÇÃO de liberdade.

Limite como opressão. A sufocar. A reduzir o ar para níveis muito inferiores aos de brisa. A insuficiência respiratória, por fim. A coisa má, que é preciso prevenir, deitar fora, escorraçar.

Estes limites, não são os mesmos de que fala John Holt. Nem os da Matemática. Nem os limites sobre os quais penso, para pensar a infância, aliás, a vida toda, aliás, o exercício de uma infância/vida livre.

Neste exercício, os limites não são coisas pontiagudas, frias, de arame farpado, de vidro partido, para espantar os pombos (agora que já não precisamos de pombos para nada).

Neste exercício, os limites, são o saber “de cour” (de coração), como se organiza a vastidão à minha à minha volta. Onde sobe e onde desce, onde se aguça e desliza, onde me obriga a concentrar a força toda nos gémeos, ou nos abdominais, ou nos glúteos, ou no córtex. São o que me permite dançar. Sem cair. Saltar. Descer e subir os degraus da vida, sem aquele susto que às vezes temos por nos esquecermos do limite de mais um ou menos um degrau e assim deixarmos cair o corpo desprevenido, fazendo vibrar a coluna vertebrar, a corda dorsal, desamparada, com um “ai”, de quem não estava à espera, de quem não sabia daquele limite.

Os limites, neste concepção que é apenas isso, uma concepção, são a rede, o colo, o que contém, corpo e emoções, são a possibilidade para antecipar, para adivinhar sequências, padrões e, a partir da sua consistência, a confiança. São o que faz com que o escuro deixe de ser, muitas vezes, o lugar do medo. Porque no escuro, não há limites. Só existe vastidão absoluta. Não existe eco. Que devolve. Que orienta. O escuro, aqui, neste meu pensar, existe lado a lado com a ausência de limites. Como o seu espelho, mas na mesma direcção. Porque não devolve, nunca devolve. É imenso, absoluto, esmagador. Se não existirem dentro de nós paredes, como a pele, transbordamo-nos, desintegramo-nos e não sabemos por onde definir a nossa existência.

E é por isso.

É por isso que pode ser tão perigoso oferecer liberdade sem oferecer também limites. Sobretudo quando se trata de crianças.

Recentemente fui convidada a pensar e a avaliar uma tese de mestrado, na condição de arguente, palavra que me leva sempre à imagem de uma pessoa de toga, algo maléfica, que desconstrói e maltrata.

Tal como a ideia de liberdade “versus” limite, a minha ideia de arguência é frágil e desadequada e irrealista. Não é disso que se trata. Nem esta escrita. Voltando à tese. Tratava do tema dos estilos parentais. Um tema sempre difícil, sobre trata afinal esta escrita.

De forma absolutamente simplista, são descritos na literatura sobre o tema, três grandes estilos parentais:

  1. AUTORITÁRIO – aquele onde a presença de um outro em volta do pescoço da criança é constante e esse outro ou outros (pai, mãe, avó, avô, professor, etc.) o impedem de mover-se em segurança no espaço que não lhe permitem conhecer (conhecer-se) e, assim, impedem que compreenda os limites, a partir da sua experiência, do seu corpo, da sua mente, mas também das indicações, estilo GPS, que o adulto deveria ser capaz de prover
  2. NEGLIGENTE (no francês “laissez-faire”, que confesso, possui em si uma sonoridade altamente atrativa e sensual, que é condição intrínseca a esta língua, pelo menos para mim), está no extremo oposto ao autoritário e significa a ausência absoluta de limites, de fronteiras, de contenção, de controlo, por parte dos cuidadores. Muitas vezes, este “estilo”, quer também dizer ausência de afecto, uma vez que o afecto implica um pouco a função de candeia em lugar escuro. O afecto, implica umas vezes mais, outras menos, esta função de roteiro, de amparo e, por isso, de decisão, de clarificação.

 

Por fim, a meio caminho entre os dois e, como quase em tudo na vida, está a virtude. O momento no espaço que será o momento de onde se consegue olhar para a frente e para trás, sem ter aquele arrepio do nevoeiro, pela frente, e o da vastidão, para trás. O pescoço livre dos espinhos, mas não livre de um abraço, de dois braços, que aqui e ali estão. Livre de algemas, mas sem a ausência absoluta e estrema da escuridão, a ausência absoluta e extrema do outro. É chamado:

  1. “AUTORITATIVO”. Pessoalmente, não morro de amores pela palavra, mas não será este o momento para inventar outra.

 

Voltando ao (b) “laissez-faire” (o negligente, em português), ocorre agora, nos tempos mais recentes, segundo pude aprender durante a leitura e reflexão sobre a referida tese, uma outra categoria, um outro estilo de exercício da parentalidade a que se chama “indulgente”.

O indulgente (Indulgent), também chamado “permissivo” ou “não-directivo”, de acordo com Baumrind (1991), “é mais responsivos do que exigente. São pais pouco tradicionais e muito tolerantes, que não exigem/esperam comportamento maduro e que permitem considerável auto-regulação e evitam o confronto”. Podem, ainda, de acordo com a autora,  ser divididos em dois tipos.

– Atenção que mesmo assim, continua a ser redutor olharmos para estas questões como se fossem “dietas” ou “dress-codes”. Os estilos parentais, muito mais do que muito menos, são contextuais e, por isso, dependentes de muitas e difíceis variáveis e, por isso, coisas que mudam ao longo da experiência de parentalidade, o que quer dizer, às vezes, ao longo do dia, e para cada relação pai-filho(a) ou mãe-filho(a).

Voltando à descrição, à partição do indulgente, sugere a autora que podem ainda ser de dois tipos: (b1) os “democráticos”, que embora tolerantes, são mais conscienciosos, envolvidos, e comprometidos com a sua criança e (b2) os “não directivos”.

Parece-me, assim e repentinamente, que há algo de indulgente naquilo ao que agora, ainda mais recentemente, ouvimos e lemos por todo o lado, o último “musthave” de qualquer pai ou mãe que seja “trendy” e que é bonito, delicado, forte:  Senhoras e Senhores:

  • PARENTALIDADE COSNCIENTE.

Assim, sem grande consciência da minha parte, no sentido de não estar, neste momento, a reflectir muito sobre o assunto e apenas a escrever de forma célere, claramente movida por outro tipo de estrutura, a designação “parentalidade consciente”, faz-me pensar em intencionalidade.

Serão os pais e as mães que planeiam o seu exercício parental com grande rigor. Que estão informados. Que sabem muitas coisas sobre a criança epistémica, muito antes de terem a sua criança real. São também conscientes noutras matérias. São activos, no sentido de fazerem ouvir a sua opinião e de exercitarem o seu pensamento critico, ao que é tradicional, convencional, e, por oposição, pouco consciente ou racional.

Será também um pouco o oposto à parentalidade espontânea, governada pelo aqui e pelo agora.

Assim, sem grande reflexão, parece poder ser, por um lado, um estilo cheio de regras, de limites, de contenções mas, por outro, e porque se demora no processo de tomada de consciência, quer ao nível do racional, quer ao nível das emoções, será talvez o oposto.

Poderá, talvez, convergir nalguns casos para a indulgência ou, mesmo até, para a absoluta ausência de direccionalidade. Ou seja, tal como os outros estilos, já mais démodé, nada garantem sobre a qualidade da criança que dali pode emergir.

Parentalidade consciente é mundo gigante de coisas que acontecem e que não são todas as mesmas, não obstante, várias famílias se autoavaliarem (ou serem avaliadas por observadores externos) como mais próximas deste modus vivendus (atenção que inventei isto agora e não vou confirmar o tamanho do erro, porque não estou, consciente da arbitrariedade da língua, minimamente preocupada que não exista a não ser dentro da minha cabeça e, agora, momentaneamente, também fora dela).

Então e qual é o problema? Qual é o atrito? O que é que me faz sentir (ou fez, visto já ter escrito 1726 palavras até este exacto parêntesis) que era este um assunto para escrever, para partilhar em jeito de provocação, de atrito, ele próprio.

O problema, invariavelmente, é que, invariavelmente, quem sai sempre a perder (ou a ganhar, também, é verdade), são as crianças.

Esse sujeito de direito que está ainda tão longe, tão, longe, txiiiiiiiiiiiiiii, a uma distância tão grande, tão indefinida, de um lugar de onde às vezes parece que se aproxima, mas que nunca, como na matemática, no limite, da matemática, consegue alcançar.

Seria, talvez, a criança Nirvana ou qualquer coisa do género.

Mas claro, que à criança está vedado esse estado. A criança continua, para o bem e para o mal a construir-se com mais ou menos qualidade dentro daqueles que são os limites do exercício da parentalidade dos seus progenitores. E mesmo no caso do estilo indulgente, mais para os lados do democrático ou mais para os lados do negligente, existem sempre limites e existe sempre liberdade.

A ausência de limites é, talvez, ela própria, um limite.

Um limite à capacidade para nos sentirmos seguros.

Para saber ler o exterior (e também o interior, sobretudo quando somos mesmo pequenos).

Um bebé não se autorregula sem um ambiente de objectos humanos e não humanos que favoreçam e permitam a sua regulação e que sejam eles próprios, protagonistas dessa regulação que acontece de fora para dentro, durante um tempo.

É contudo um limite quase invisível este. O que separa a intrusão, a interferência do necessário, do imprescindível. Todos os bebés e mais tarde, todas as crianças, tal como todos os pais, são diferentes, lá dentro e cá fora, e nesta mistura de propriedades não-newtonianas, sempre em movimento, sempre em ajuste, tudo se liga e desliga e mistura e separa e parte e regressa e se recria. Tudo. Muita coisa. Tudo, é mesmo muita coisa.

Deixar nas mãos, no corpo, no físico e no mental da criança a responsabilidade maior para decidir os seus limites, nalgumas circunstâncias, é o mesmo que abandono.

É um bom caminha para que a criança se desenvolva de forma desorganizada, amedrontada, atormentada pela escuridão que se fecha muitas vezes à sua volta. Um tsunami gigantesco e ao qual não é possível escapar.

A parentalidade consciente, agora que pensei mais sobre o assunto, que li mais, que discuti mais, que olhei mais para o que está à minha volta, perto, longe, dentro e fora, deverá ser mais próxima da parentalidade que, como a liberdade para dançar e controlar o espaço, implica saber da topografia do lugar onde danço.

A parentalidade consciente, deve ser aquela que é capaz, nos momentos certos, de fornecer os limites, de forma exemplar, objectiva, sem margem para dúvidas. Limites claros, intransponíveis. Limites que dizendo o que não pode ser, esclarecem imediatamente o que pode. Limites que não têm, nem devem, porque o bebé não é igual à criança e a criança não é igual ao adolescente, entenda-se, ser escrutinados e justificados.

Há lugares que só podem ser lugares de segurança e de conforto se o forem porque sim. Ou porque não. Esse absolutismo, que noutras circunstâncias aperta o pescoço e fere, durante a infância, pode ser indispensável. Curativo. Reparador.

E é a partir dele, do absolutismo, que de forma mágica, mas insubstituível pelo poder que a magia tem nesta existência efémera e de onde se lançam as estruturas a partir de onde depois se desenvolve todo o edifício humano, este absolutismo, dizia, é o lugar tranquilo e inabalável a partir de onde nasce o beijo. O beijo anti-inflamatório.

O beijo analgésico. O que não tem efeitos secundários.

O beijo perfeito.

Mas que só tem poder durante aquele tempo efémero. De onde os limites se constroem a partir do outro, o pai a mãe ou cuidador genuíno, consciente e inconsciente. Os que, para a criança, sabem tudo, no momento certo. Esta não é altura para visitas aos bastidores os pais. Mais tarde. Tudo a seu tempo.      

As crianças precisam de limites.

As crianças precisam de liberdade.

A liberdade, contém em si, dentro de si, é contingente a ou, à, existência de limites.

Os limites são o que, ou através do que, se permite o desenhar da liberdade.

Os limites são o beijo. E todas as crianças precisam deste limite. Objectivo, irrevogável, indizível e não apto a ser deste ou daquele estilo parental. A consciência será sempre importante. Assim o sonho o seja também. Tudo cabe. E tudo pode às vezes não ser necessário ou desnecessário.

Menos o beijo.

Esse não pode faltar nunca.

 

Inês Peceguina

 

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