Crónica – Onde vivem os monstros?

Crónica – Onde vivem os monstros?

On Setembro 29, 2016, Posted by , In Crónica, With No Comments
Ensaios do i de brincar.
Por Inês Peceguina.

the-wild-things-are-characters-clip-art-where-the-wild-things-are-kz3rwq-clipartHá dias na vida de uma pessoa (ou às vezes não, às vezes esses dias nunca chegam), em que a pessoa sabe, de coração, que é chegado o tempo. Quando esses dias chegam, acorda-se muitas vezes, muito cedo, por tudo e por nada.

E nesse sono ligeirinho, qual exercício acrobático, parece que o Universo decide convocar todas as substâncias que podem impedir a pessoa de dormir o que quer que seja.

Convoca o galo do quintal paredes-meia, que canta indiscriminadamente, desorientado pela presença constante da luz (o galo que ainda não se adaptou a outras luas que são só candeeiros e faróis e selfies nocturnas). Convoca um camião do lixo doméstico cujo condutor deverá ter adormecido (ou sucumbido aos gases tóxicos), deixando a rugir aquele bicho malcheiroso que se quer desembaraçado e invisível, o mais possível.

Convoca ainda um gata, também doméstica, que já teria idade suficiente para dormir toda a noite, mas que em vez disso está enfeitiçada por um cotonete (limpo, salvaguarde-se), saltando e perseguindo a pequena e feroz criatura cotónica, sem a mínima preocupação sobre estar mesmo aos pés da cama. A minha cama. Onde, by the way, estão também os meus pés.

E por fim, convoca a criança constipada com o nariz entupido e que para evitar secar às custas de ter de respirar de boca aberta, passa a noite a pedir água (com modos quase nada delicados) e a esticar braços e pernas, de modo que a cama, que um dia foi de tamanho de rei e rainha, se transforma num pequeno caixote onde só cabem sonos pesados e corpos leves. E eu, hoje, não entro em nenhuma dessas categorias.

É assim que descubro que é chegado um desses dias, um desses tempos de desassossego. Porque se o não fosse, o Universo cansar-se-ia. E eu lá faria o meu sono de beleza, titubeante de sonho em sonho e a alheia a toda a vida nocturna que, vá, se a pessoa não tiver ervilhas no colchão, sempre dorme qualquer coisinha.

Antes deste texto, escrevi sobre a escola, sobre as escolhas, sobre a vida se ter transformado em duas estações, dois lados – o tempo lectivo e o tempo não lectivo. Hoje, o assunto não é absolutamente distante deste. Não poderia. Trata de escolhas também. Mas trata sobretudo desta coisa irritante que as pessoas (a maioria das pessoas, sim, a maioria, umas de forma explícita e palerma, outras de forma implícita, mas potencialmente perversa e perigosa), esta coisa que as pessoas fazem, sem pudores e sem fazer uso do potencial neuronal, que é achar que sabem coisas, sem de facto saberem.

E não são só as pessoas ditas leigas. As que por razões várias, não dispõem do tempo ou da apetência para se debruçar sobre as questões, ou para experimenta-las e, então, dizer a partir desse exercício empírico. O pior, nestas coisas de pensar e falar sobre matérias que dão pano para mangas, mas que, feitas as contas, está absolutamente nua a pessoa, pois foi (e é) outra a sua farda, o pior são os técnicos-pessoa (e não vice-versa). Os especialistas-pessoa.

Chega o momento de escrever preto no branco. Mas alertando para que qualquer escrita sobre qualquer assunto tem tudo menos ser de preto e branco. Trata-se, meramente, de um exercício de contraste e de ser muito mais simples (e menos cansativo para os olhos e para a edição do texto) escrever o texto todo da mesma cor.

Então, é sobre os monstros. Os monstros vivem em muitos lugares, já sabemos.

Porque há muitas pessoas por todo o lado. E como é dentro das pessoas que estão os monstros, então, cruzes canhoto, há monstros por todo o lado.

Mas os monstros mais terríveis, naturalmente, nunca são os nossos monstros. Esses são só monstrinhos. No fundo fofinhos, porque são nossos. Às vezes temos medo deles, mas em última instância estão mais ou menos habituados a nós, e nós a eles, e também são todos muito parecidos uns com os outros. Porque os monstros, como as pessoas, quando crescem expostos aos mesmos estímulos, às mesmas práticas parentais, aos mesmos rituais de socialização e aculturação, quando são arquitectados a partir dos mesmos terrores, ficam todos mais ou menos aparentados. Uma grande família de monstros que já não fazem mal (ou bem) a ninguém. Como o benuron. E a alface.

Os monstros terríveis, esses, são cada vez mais impossíveis de esconder, pelo sujo e cor de cocó. Que cheiram a cocó, claro, mas também a ovos podres (quantas crianças de hoje em dia já alguma vez cheiraram mesmo um ovo podre? Pergunto-me, entretanto), e a ranho e ouvidos sujos e a todos os maus cheiros que habitam sítios fechadinhos, onde não corre um ar, e que as pessoas tratam de expurgar com recurso aos mais variados químicos, logo desde a infância nasce, dado que as crianças nascem todas sujas e sujam-se bastante ao longo dos primeiros meses, como se sabe. Este ritual, é perfeito para exterminar os cheiros, e também as defesas naturais e insubstituíveis da pele. Um detalhe. Só um detalhe. O lado malvado, caramba, é os que os cheiros estão a sempre a voltar. Como os monstros. Sobretudo, os monstros que vivem nas outras pessoas que não conhecemos. O monstro da vizinha é muito, muito pior que o meu (ou melhor, dependendo da direcção da escala de mosntrice a que se recorre).

E o monstro de hoje, senhoras e senhores, meninos e meninas e, ainda, monstros que já não fazem mal a uma “musca domestica domestica”, esse bicharoco comum capaz de transmitir, entre outras inconveniências, febre tifoide, cólera, salmoneloses, disenteria por bacilos, carbúnculo e, excepcionalmente (ao menos isso), miíase biontófaga, que é uma monstruosidade absoluta e sobre a qual desaconselho (MESMO) a pesquisa por recurso a imagens (aqui a quem não se contiver).

Voltando ao monstro da minha insónia, TAM-TA-RA-RAM… é o monstro do Ensino Doméstico. Vá lá, já haveriam alguns que por altura sabiam do que se tratava.

O ensino doméstico está na ordem do dia (e da noite, pelo menos para mim…). Chegou à rua, venham ver! Está por aí e, segundo se ouve, não faz lá muito bem. Ok, não se sabe, mas na dúvida, opta-se por achar que deve fazer causar defeito. Porque é mesmo assim que as pessoas são ensaiadas para lidar com o que não é igual. Se não é, então é porque não deve fazer bem. Deve ser por isso que, no global, tememos tanto a mosca varejeira, já que a outra, tão vulgar no dia-a-dia, se tornou misticamente inofensiva, certo?

Então, ensino doméstico. E agora vou percorrer os ditos e não ditos que vamos ouvindo, que isto às vezes cansa, tanta opinião e zero em interesse genuíno, em “espera lá”, em “talvez”, em humildade e humidade, porque é a humidade que deixa crescer. Se estiver tudo seco e ressequido, quer se trate da terra ou da pele ou do que fica por dentro da pele, não há mudança, não há crescimento, não há senão pó e certezas absolutas de que a vida é para ser vivida tal como as pessoas-técnicas e as pessoas-políticas, e as pessoas-economia, e as pessoas todas que querem lá saber de cada pessoa em particular, andam já há tempo considerável a escrever e publicar em formato parecido a bulas. Letras muito apertadas, em número infinito, em tamanho que não é uma opção no word lá de casa, muitas, muitas, muitas, para que ninguém leia, ou se ler, não compreenda e assim desista e aceite viver, sequinho sequinho, mas seguro de que se vai na frente do rebanho, evitando assim as caganitas dos que só comparecem depois, mas que lá se apresentam, ao menos isso.

De tal forma deve o ensino doméstico ser coisa perigosa (e pegajosa, será?), que, na perspectiva das pessoas-não-técnicas, transforma as crianças em:

– Fadinhas-do-lar (por outras palavras, trabalho infantil) e;

– Meninos e meninas da mamã que, naturalmente, mamam a bom mamar, ultrapassando grotescamente as recomendações da OMS;

– Seres a-sociáveis, que não é o mesmo que tendência para o associativismo;

– Criaturas moles, não só de coração (o que não é sempre uma coisa má), mas de espírito e de corpo, que não aprendem a defender-se dos perigos e dos desafios da vida real e que, nesta concepção, principia e termina no edifício escola e, portanto, quer dizer, defender-se da indiferença, da dependência emocional e intelectual (que é premissa, por exemplo das classificações/notas, sendo que boa nota = pessoa capaz; nota média = pessoa assim-assim, nem carne nem peixe; má nota = pessoa daninha), da artificial socialização providenciada por grupos artificialmente apinhoados que resulta, sempre para alguns gatos pingados (que apesar disso, são pessoas, veja-se), numa experiência continuada de tortura psicológica e por vezes física também, que hoje é ainda mais requintada, incluindo meios audiovisuais e virtuais e virais. Fiquemos por aqui.

Resumindo, tudo o que a criatura humana precisa para entrar na selva humana, seguindo o rebanho nas filas da frente e evitando as caganitas dos outros, não lhe é dado a praticar na modalidade ensino doméstico, pelo simples e ardiloso facto, de não ser providenciado aos petizes essa pérola diária, esse lufa-lufa de rabos sentados em blocos de 90 minutos, uns a seguir aos outros. Claro, diria o meu colega famoso, não podemos esquecer os intervalos. Porque é durante os intervalos, essa arena palpitante onde se desenlaça a dança de torna-se pessoa amiga, conhecida, desamigada, amiga outra vez. Ou nada.

Pode-se ser só nada. Um pontinho que isolado da constelação social. Esses que não dão trabalho aos professores nem aos pais. Sossegadinhos, sempre bem aprumados nas suas vestes que, obviamente, foram adquiridas a pensar no estilo do avô, sempre com o trabalho de casa impecável, e uma joia de ser, sendo o único problema a facilidade com que toda a gente se esquece da sua existência, incluindo os professores e que, por essa razão, aconteceu já mais de uma vez, ter faltado a uma aula porque os “amigos”, o trancaram nalgum lugar da escola que ainda é possível trancar. Só por graça, claro. Porque os miúdos são todos amigos. Nestas idades isto não faz mal a ninguém. Faz bem até! Enrijece. Porventura alguns destes miúdos transformar-se-ão em Hércules, de tão rijos que ficam. Ou isso, ou começam a cortar-se, literalmente aos bocados. Enfim, coisas que acontecem, mas nem por isso as pessoas se põem a duvidar do bem que faz a escola.

Agora, do ponto de vista das pessoas-técnicas, importa, antes de avançar, para não ser injusta, afinal, são pessoas habituadas a ser pessoas-especialista, explicar que entre estas, são muito poucas as que, no seu exercício, sabem deste dialecto. Porque em lugar nenhum da sua formação e das suas vidas, algumas já vastas, estiveram lá, a par e passo, das famílias e dos miúdos e, portanto, como bons ocidentais, tratam de aplicar as regras dos estudos científicos e das resultantes teorias (que são apenas isso, teorias) com base em segmentos amostrais quase absolutamente provenientes da América do Norte e, em especial, das universidades de psicologia. Sobre esta matéria, sobre a qual não se investiga, sobre a qual não há dados, mas ainda assim, dispõe de diversos exemplares, alguns até disponíveis a avaliação decente (não docente, atenção), as pessoas-técnicas parece que operam exactamente como as não técnicas. Com desconfiança, pré-conceitos e juízos de valor infundados e de grau muito duvidoso.

Do ponto de vista dos senhores doutores (ou mestres, a maioria, embora essa questão tenha pouca importância para a qualidade da pessoa, pelo menos nos moldes fantasiosos do ensino doméstico), do seu ponto de vista, que acaba tantas vezes em recomendações e em acções de grande prejuízo para a pessoa-criança/jovem e a sua família, é isto que faz o ensino doméstico:

  1. Priva
  2. Limita
  3. Constrange
  4. Inibe
  5. Amputa
  6. Ignora
  7. Desnorteia
  8. Desumaniza
  9. Isola
  10. Aliena (do sentido da alienação, da abdução, mesmo)

O ensino doméstico, por não expor a criança às práticas continuadas do edifício escolar (e não estou a falar só do objecto de arquitectura, esclareça-se), às ausências continuadas da família e da comunidade, à ausência de duvidas e incertezas, porque para ter dúvidas e incertezas é preciso ter tempos despovoados, para deixar crescer dúvidas e incertezas, por isto tudo, e mais ainda, mas por agora assim chega, não é possível (nem desejável), que os miúdos que têm uma experiência tão diferente, possam tornar-se pessoas (adolescentes e adultos) muito semelhantes às pessoas (adolescentes e adultos), que tiveram a outra experiência. Não é mesmo nada provável.

Agora, o que é preciso que se observe, em particular quem tem o dever de observar e de ser pragmático e cauteloso (as pessoas-técnicas) no seu exercício de ajuizar sobre a salubridade do outro, que a questão de a pessoa se tornar pessoa inteira, valiosa, interessante e sensata e adaptada e essas coisas importantes para ditar que alguém vai bem ou nem por isso, não depende, não resulta, não se constitui, nem se desmorona a partir da escola.

É uma discussão que ronda a da chucha. Porque, no limite, a chucha está para o bebé, como a escola está para pessoa-aprendiz. No limite, as chuchas são um objecto que vende que se farta, e que, mal ou bem, sossegam bebés e famílias, tal como a escola vende que se farta e, mal ou bem, sossega crianças e jovens e famílias. A escola, tal como hoje a conhecemos, é tão natural como a chucha. E isto, não quer dizer que as pessoas devem ser proibidas (ou obrigadas) a usar chucha. E também não deveria querer dizer que as pessoas só se constituem enquanto tal, se forem proibidas (ou obrigadas) a usar a escola.

Mas… e é esta parte que me anda a provocar eczemas na alma, ao mesmo tempo que se fala tanto de ensino doméstico, que até se sente uma pontinha de fascínio, tipo tendência, que se diz que sim, que vivemos em democracia e em liberdade, ao mesmo tempo em que tudo é permitido, e já não há um modelo de família, nem de parentalidade (há a tipo helicóptero, a tigre, a consciente, e a “tipo melhores amigas, sabes?”), ao mesmo tempo que se quer taxar o sol (sem considerar o vento) e que, dia após dia, somos banhados por excepções que, “manda quem pode e obedece quem deve”, se traduzem em moralidades e leis duplas.

Ao mesmo tempo que isto tudo acontece, há uma grande concentração de desalinho e de barafunda que nem lhe sei dizer uma palavra. Há cada vez mais pessoas a requererem a modalidade de ensino doméstico – que é um direito, uma opção (ou será que devia escrever “oção”?), e cada vez mais agrupamentos a torcer os narizes e afiados e empinados a dizer “vamos lá ver”, “vamos lá ver se é diferido, esse pedido”. Diferid…?!!?!?!?! Di, o quê? Então, mas afinal é uma opção ou não? E mais, parece que há câmaras a recusar os manuais escolares aos alunos do 1º Ciclo em ensino doméstico, porque, dizem, são equiparados alunos do ensino particular? Espera! Arrête! Então, mas não diz a lei que os estatutos do ensino particular e cooperativo, não se aplicam ao ensino doméstico? Mau Maria!

E os apoios também. Como assim, os apoios?! Sim, há agrupamentos a recusar os apoios às crianças, porque parece que o estatuto de NEE (i.e., necessidades educativas especiais) não pode ser conferido a quem está em ensino doméstico, mesmo que a criança tenha adquirido este estatuto enquanto estava na modalidade presencial. O que, de alguma forma mágica e maravilhosa, é absolutamente UAU! Ou seja, a criança, a partir do momento em que passa a ensino doméstico, transforma-se numa criança típica. Ou, por outro lado, só as crianças sem lascas é que estarão habilitadas a ser espécimes de ensino doméstico, será isso? Quer dizer, podem ser especiais, mas muito especiais já não.

Grande, grande sarrafusca que aqui vai. Mas não é de estranhar. É um pouco bom e um pouco indecente. Como a maioria dos monstros. É gostoso, porque se começa a fazer barulho e a trazer inquietação (e isso são coisas que podem fazer criar outro tipo de rebanho, talvez com caganitas mais ecológicas).

E é assustador porque, tantas vezes, o barulho faz medo e as pessoas, quando têm medo, quando se sentem no limbo das suas verdades e dos seus saberes, e ficam as vezes mazinhas, crueizinhas, torturantezinhas e outros inhas que não são fofinhos como os nossos bons e fiéis monstros do quotidiano.

E isto acontece com todas as pessoas. As que são só pessoas-leigas na matéria, e as que são, para todos os efeitos, os especialistas, a quem se recorre e de quem se espera profissionalismo. E profissionalismo, passa, primeiro, por saber receber a dádiva da humildade (e da humidade, já se sabe). Passa por não ser precipitado e dizer coisas só porque se tem estatuto para se dizer o que se quer. Passa por não tomar por monstros as sombras. O ensino doméstico, por si só, não se constitui como um factor de risco, de limite, de castração. Da mesma forma (embora aqui tenha a tendência para me comportar de modo menos profissional, mas vou tentando ser moderada, prometo), da mesma forma, o ensino presencial, por si só, também não se constitui como factor de redenção, de conquista, e de promoção das habilidades humanas (nem ao contrário).

Agora, o que não pode continuar, é esta macedónia (salvo seja a Macedónia), esta salada Russa (esse país fresquinho e com pessoas fresquinhas que não são para aqui chamadas), este baile de finalistas de monstros que só aceita monstros até um determinado grau de monstrice. Ou sim, ou sopas.

Assim é que não, que há pessoas a precisar de dormir uma noite de fio a pavio.

Inês Peceguina

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