MEL – Associação Movimento Educação Livre

Como sobreviver ao dia-a-dia para quem de repente ficou em Ensino Doméstico Obrigatório, ou seja, toda a gente!

Como sobreviver ao dia-a-dia para quem de repente ficou em Ensino Doméstico Obrigatório, ou seja, toda a gente!

On Março 13, 2020, Posted by , In ED,Informações,Uncategorized, With 2 Comments

A partir de segunda-feira, dia 16 de Março, 2020, com o encerramento das escolas por causa do Corona vírus, todas as crianças vão estar temporariamente em situação de ensino doméstico (ED) ou homeschooling. Se para algumas famílias esta até poderia ser uma ideia que gostavam de experimentar, para outras, talvez a maioria, esta pode ser uma situação de grande ansiedade, receio e preocupação. O mesmo para os miúdos que estão habituados às suas rotinas que incluem a presença na escola durante a maior parte do seu dia. 

E agora? 

Enquanto especialistas neste território – a MEL acompanha famílias em ED desde 2011, pensámos que esta poderia ser uma boa altura para revelar alguns segredos. E, já agora, uma boa altura para dizer também: “Hey! Estamos aqui a trabalhar em prol da liberdade em educação e enquanto apoiantes desta missão vão beneficiar de um maravilhoso good feeling (acompanhado por uma aura invisível gratuita) por apoiarem financeiramente uma causa em que acreditam – o bem-estar da criança e das famílias e o seu direito em ter opções educativas que melhor respondem às suas necessidades. Basta clicar aqui. E aqui, para visitarem o nosso site.

E agora os segredos…

Talvez o mais importante seja criar uma rotina. Não se trata de um tempo de férias e tanto os pais como as crianças vão precisar de “âncoras”, que permitam manter alguma organização, não apenas da casa, mas do espaço interno. Ter essa estrutura, saber o que vai fazer, quando e durante quanto tempo, ajuda a que a “casa interior” se mantenha em paz e limpa. Assim, reunam todos os que vão estar em casa, e definam um plano de acção. Um horário. Escrevam e pendurem num lugar visível para todos. Por exemplo, reservem as manhãs para trabalhar conteúdos académicos (muitas famílias em ED utilizam esse tempo). Para isso, é importante que encontrem um espaço de trabalho confortável e bem iluminado e onde a criança geralmente e naturalmente se coloca quando está interessada em tarefas que exigem mais concentração. Se forem várias crianças, podem trabalhar em conjunto. Podem definir um conteúdo/matéria por dia. Em função da idade da criança e do seu grau de autonomia, têm de estar mais ou menos presentes para ajudar a criança a organizar o seu trabalho. Não têm de estudar por ela, nem com ela, mas têm de estar disponíveis para ajudar a organizar este tempo. 

1. Os pais que nunca estiveram em ED também podem não saber como organizar o seu tempo em casa e conciliar este tempo (sobretudo as mães) com as tarefas domésticas que entretanto também vão surgir com mais frequência, porque as refeições vão acontecer em casa. Será um desafio. Definam um tempo para isso. Separado do resto do tempo de trabalho.

2. Se conseguirem estar disponíveis para ajudar a criança a adoptar esta nova rotina, até que ela vos dê pistas de que podem não estar tão presentes (por exemplo, já quase não vos chama), podem também negociar com ela que depois do almoço, será o vosso tempo de trabalho e que esse tempo tem de ser respeitado. A pouco e pouco, sentindo-se respeitada no seu tempo, a criança naturalmente respeita o tempo do outro. Children see, children do.

3. O tempo livre também precisa de ser cuidado. Se por um lado esta pode ser uma oportunidade extraordinária para que as crianças e a família possam passar tempo juntos, os irmãos, que tantas vezes não têm esta oportunidade, sobretudo se as diferenças de idade forem maiores, por outro, é importante que esse tempo não seja apenas ou na maioria tempo de ecrã. É verdade que isso pode garantir umas boas horas de foco e silêncio. Mas não há almoços grátis. É um engano. E os efeitos para a criança são imediatos. Na sua saúde. Embora possam não ser imediatamente visíveis. Assim, é uma boa altura para deixar alguns jogos de tabuleiro/mesa, livros, materiais de pintura e de escultura, trapinhos, missangas… Loiça para lavar… 

4. É também muito provável que os miúdos se sintam aborrecidos. Nada a fazer. Faz parte do processo. Estar aborrecido e sem nada para fazer é uma boa oportunidade para pensar, para ouvir (as ideias, as emoções, os desejos, as preocupações). E se a criança se queixar muito, mostrem-se compreensivos, mas não ofereçam soluções imediatas. Confiem! Se há coisa que é grande nos miúdos, é a imaginação e a criatividade. Pode eventualmente estar meio enferrujada, porque não é muitas vezes uma área activa e seriamente desenvolvida em contexto escolar, mas confiem que está por ali à espera de uma oportunidade para brilhar.

5. Uma casa desarrumada é uma casa vivida! Não é uma fantasia, bem geridas, as tarefas de arrumar e organizar podem ser distribuídas e quem sabe até prazerosas. Para além de que conferem a quem as faz, uma vez terminadas, aquela sensação de “ahhh”. Esta é uma boa oportunidade para repensar as prioridades. Pode ser também uma boa oportunidade para demolhar leguminosas, cozinhar em conjunto, almoçar, lanchar e jantar em conjunto e aproveitar esse momento para estreitar laços e para reflectir sobre o que comem. De repente acontece uma aula de biologia, geografia, português, matemática sem darem conta. Isto é uma coisa que acontece muito em ED. Por exemplo: “Mariana, sabes que o feijão Mung vem da Índia? Isto leva a pensar onde fica a Índia, quanto tempo é preciso para lá chegar, que transportes podem ser utilizados, quem é que descobriu a Índia… Mas descobriu mesmo, ou já lá estava? Uma coisa existe antes de sabermos que existe? E o feijão, era de frasco ou seco? E quanto tempo levou a demolhar? E que quantidade seria preciso de a família tivesse o dobro das pessoas que tem? E o que contém o feijão? É deixar fluir… Não sabemos se um mês é suficiente para que este processo aconteça, mas quando acontece, garantimos, é uma coisa que é tão natural, tão espontânea, tão boa de se sentir e partilhar que é mesmo aquela coisa que faz com que o ED seja a melhor opção para algumas famílias. Claro que nem todas as pessoas fazem isto com facilidade. Seja como for, pode ser interessante a experiência. 

6. Se por perto existir rua, observem quando são os tempos menos povoados e saiam. Os jardins são muitos maiores que os parques infantis. E há por aí muito boas árvores para trepar. Já para não falar de joelhos a precisar de esfoladelas à moda antiga. 

7. Se não for possível, pesquisem na net, nas apps. Há de certeza imensos vídeos e esquemas de exercício fisico que podem ser feitos em casa. Nunca a bola de pilates teve tanto espaço a uma utilização conveniente e regular!

8. Ponham os miúdos a escrever cartas aos amigos! Papel e lápis! Ou computador e impressora, que talvez os Correios nesta altura sejam ainda mais zen que o habitual. 

9. Aproveitem para estar uns com os outros. Quem sabe esta oportunidade traga outras oportunidades. Quem sabe alguns que aqui chegaram sem opção decidam que querem ficar mais um pouco. Outros não. Somos pela pluralidade. 

E estamos disponíveis para vos ouvir e acompanhar de forma mais próxima, ainda que virtual, claro! Pelo menos por agora…

Por fim, uma lista de recursos para trabalhar que são populares entre os EDs: 

Khan Academy

DIY

Escola Virtual

Outschool

O Bichinho do Saber

Toda a Matéria

Busuu

Nota Positiva

2 Comments so far:

  1. Ana Soares diz:

    Olá,
    desde há algum tempo que venho pensando na opção de ensino doméstico.
    Inclusive, porque à cerca de 4 anos fiz umas formações sobre agricultura biológica e ensinamentos waldorf, uma vez que andava a preparar um projeto ligado à Natureza e comecei a sentir que talvez esse fosse o caminho.
    Neste momento, forçada, acabei por me ver em casa com os miúdos 4, 9 e 18 anos e a deparar-me com algumas questões que aqui referem, como a gestão de tempo, mas a sentir-me finalmente realizada por poder acompanhar a educação deles em vez de me ver obrigada a delegá-la a estranhos (e acreditem que atualmente estavam os mais novos muito bem entregues a estilos educacionais excelentes e tão naturais quanto lhes era permitido).
    Gostava muito de poder enveredar por este caminho, pois sinto que me realiza a mim e a eles.
    Parabéns pelo vosso trabalho de divulgação.
    Quanto à minha realidade, vou aproveitar este tempo para a repensar e estruturar.
    Fiquem bem, fiquem sãos!

    • mel diz:

      Ana,

      Muito obrigada pela sua partilha. Já vi que entretanto se juntou a nós formalmente! Obrigada em nome da equipa! Se tudo correr bem, daqui a bocado teremos o primeiro life! Se puderem, juntem-se a nós!
      Um dia feliz e em segurança a todos.
      Inês Peceguina