Viver e Deixar Viver

423_1096613937025753_7625026751778805515_nEsta é uma escrita que surge na sequência do tão “acarinhado” artigo publicado no Expresso, sobre o Ensino Doméstico em Portugal. É também uma escrita decorrente dos vários artigos publicados, por exemplo, no Público, sobre o estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), relativamente à saúde dos adolescentes, e também, ao papel da escola na promoção da saúde e à percepção que os jovens têm da escola. Ao afecto. E é, ainda, uma escrita sobre o que é isto da liberdade, da democracia, do dizer o que se pensa (mas nem sempre se pensou), o que quer dizer mais o que se sente e que, assim sem grande reflexão (eu a sentir mais do que a pensar), me parece que, de forma grosseira, reagimos muito mal ao que é diferente. Mesmo quando o diferente parece ser bom.
A primeira emoção, quando não se faz parte da diferença, não é a da curiosidade infantil e descomprometida. Não. A primeira emoção é governada pelo princípio da homeostase. A bem da saúde mental. A bem de dar significado e continuidade às nossas experiências (organizadas e saudáveis ou desorganizadas e patológicas ou outra combinação qualquer). Não. Não pode ser. Cheira a ovo podre. Meia centena de pessoas felizes fazem comichão. São pedra em sapato. Venham de lá os especialistas e os técnicos para dizer duma realidade que não conhecem.

Estranho, portanto, que outros números não sejam tão impressionantes, nem gerem tanta polémica, sobretudo porque são números de ordem muito maior. Por exemplo, no ano lectivo de 2014/15, foram registadas 9130 participações disciplinares; 4229 alunos com participações disciplinares; 4554 medidas correctivas (e isto são dados de apenas 38 agrupamentos que disponibilizaram as suas estatísticas; consultar http://www.comregras.com/1o-estudo-sobre-indisciplina-em-p…/). Este é também um dos problemas referidos pelos artigos que reflectem sobre o estudo da OMS. Hoje de manhã, a TSF debateu este tema, mas não tive ainda oportunidade para ouvir. Seja como for, são números muito grandes e maior ainda será o que representam estes números. E representam, primeiro, sofrimento. Sofrimento de pessoas ainda muito jovens. Pessoas muito jovens que não pertencem e que, por não pertencerem, são convidadas a melhorar, muitas vezes, via “vai-te embora e volta curado” o que já se sabe, só faz com que regressem ainda mais zangados e despertencentes. E representam, depois, sobretudo, caos. Um grande caos. Representam um sistema que quanto mais se organiza para o controlo, sob a vigilância das Policias da Escola Segura e dos sistemas de vigilância e das entradas e saídas aferidas electronicamente, mais faz arder. Quando no meu primeiro projecto de doutoramento investiguei o conflito e a reconciliação no contexto escolar do pré-escolar, descobri que, à semelhança de outros sistemas de primatas, a tensão aumenta quando o território de acção é menor.
E diminui também a reconciliação. Verificamos o mesmo com as nossas pequenas crianças. Dentro da sala pode haver menos conflito, mas há mais tensão, porque não é possível “arejar”, “respirar” e regressar depois, com mais calma e serenidade. Quanto mais pequeno o espaço, maior a tensão. E quando ocorre, o conflito tende a ser mais intenso. Novamente, porque os espaços fechados limitam a dispersão.
Isto para dizer que a ideia de que se resolve a indisciplina com um sistema de policiamento e vigilância, não é sempre uma boa ideia. Que, às vezes, ter para onde fugir, em vez de ficar e lutar, é o melhor que nos pode acontecer. Porque fugir, não é sinónimo de fraqueza. Qualquer gato sabe, depois de sinfonia de miaus e pêlos eriçados o mais possível, se é melhor explorar o quintal do vizinho ou não. É coisa simples, de sobrevivência. E pensar que devemos todos ficar e resolver estoicamente as nossas discórdias, pode às vezes ser perigoso.

Não temos de ser todos amigos. Nem temos todos de ter a mesma opinião. Nem temos todos de fazer percursos iguais uns aos outros, para nos tornarmos pessoas felizes e capazes. Temos de viver e deixar viver. E volto aos 500. E aqui canso-me um bocadinho. Não conheço todos os 500. Nem considero que o Ensino Doméstico ou o “Unschooling”, sejam boas opções para todas as famílias e crianças. Nem sei se são boas opções para todos estes 500. Nem sequer consigo, assim rapidamente, dizer que um lugar é de liberdade e o outro não. As crianças livres, versus, as crianças prisioneiras. Não é preto e branco. Liberdade não é libertinagem, como tantas vezes ouvi dizer o Professor José Pacheco e o seu grande e inigualável discípulo Filipe Jeremias. E quanto a negligência, sobre-protecção, preparação para a realidade… Então mas estes anos todos antes da vida adulta não são reais? Cada uma destas frases daria azo a mais e mais debate. E a muito sentir e pouco pensar, talvez. Mas uma coisa que aparece constantemente, e que me faz cansaço, sim, é isso, cansaço, aborrecimento, desmotivação para a discussão séria e inteligente, é esta coisa (a) da socialização e outra (b) da independência.

E antes de escrever sobre estes dois pontos, queria só fazer um parêntesis, cujo risco de estar completamente errada, assumo deste o início desta escrita toda. Será mais o que sei das pessoas que estão nos 500. A decisão de optar por não integrar os miúdos na escola, em regime presencial, não é tomada de ânimo leve. Nem sequer chega a ser uma opção primeira. Não. É uma opção segunda, terceira, quarta e por aí fora. Estas decisões, novamente, dos que conheço, resultaram (e resultam), de uma participação activa e de enorme envolvimento na pesquisa, leitura, reflexão, discussão, mais leitura, partilha, confusão, medo, outra vez leitura, observação, muita observação dos miúdos, observação de si próprio, de fora para dentro e, muito, muito, de capacidade para valorizar aquilo que sentimos e que nos faz sentido. As sociedades caçadoras-colectoras não são apenas uma inspiração. As comunidades não são apenas uma utopia. E a escola, tal como hoje a conhecemos, não existiu sempre. A maior parte da nossa existência, dos nossos saltos geniais, do nosso progresso civilizacional, não são contemporâneos da escola. Ok, as escolas não são todas iguais, mas a ideia da escola, a sua génese, e muitas das escolas contemporâneas, persistem nos mesmos princípios.

E não corre bem. Corre cada vez pior. Não se vive, nem se deixa viver. Pior. Anda-se numa correria estonteante, numa competição muito pouco salutar, numa ausência de qualquer dimensão do “eu” que não passe pelo académico e cognitivo. A ver se não me perco. Neste parêntesis. O que eu queria dizer, é que, dos que conheço desses 500, não foi uma coisa do género: “ah, a escola é muito exigente, uma seca e por isso os meus filhos não vão”, ou “ah, eu gosto tanto de estar com eles que assim, se eles forem para escola, já não estou tanto e por isso não vão, ficam comigo”. Não é simples, não é pacífico, não é ausente de dor, de dúvida, de medo. Mas é presente de reflexão. De escuta activa. De assumir algum risco sim. Mas não assumem igualmente um grande risco as famílias que optam por um modelo onde, anualmente, são registadas mais de 9000 ocorrências disciplinares? Uhm… fico aqui a pensar, mesmo sem botões… Fico a pensar sobre se faz sentido falar sobre o que faz bem e o que faz mal e como é que se faz bem e mal e sobre a legitimidade para adoptar o protagonismo nesse(s) desfechos.

O Professor Eduardo Sá faz referência à importância dos recreios. Na socialização, no desafio, na pluralidade, no confronto. E é verdade que os adolescentes, na sua hierarquia do que faz da escola um bom lugar, referem também os recreios. Mas qual é o tempo dos recreios? 10 minutos, mais 15, mas 10. Chegará a uma hora? E quando um professor falta? Nem sei se ainda há aulas de substituição, mas sei que não podem sair do equipamento educativo. Que aqui, do lado de dentro é que se treina o que o lado de fora um dia trará. Antes que me perca mesmo…
(a) socialização; (b) independência.
(a). Socialização.
De acordo com a enciclopédia do conhecimento virtual e partilhado, socialização “é um termo utilizado pelos sociólogos, psicólogos sociais, antropólogos, cientistas políticos e educacionais, para referir os processo, que decorrem ao longo da vida, de aquisição e disseminação de normas, costumes, valores e ideologias, que conferem ao indivíduo as competências e hábitos necessários para participar na sua sociedade.” Outra descrição refere: “O processo através do qual os indivíduos adquirem conhecimento, linguagem, competências sociais e valores, em conformidade com as normas e papéis necessários à integração num grupo ou comunidade.”

Em nenhuma destas definições, embora existam outras, é referido que estes processos ocorrem exclusivamente, ou em primazia, no contexto escolar. Dos alguns que conheço dos 500, isto acontece em múltiplos contextos. No café, nos jardins, nas casas, nas bibliotecas, na praia, no supermercado, na natação e no ballet (é verdade, estas crianças que não vão à escola também fazem coisas destas!). Acontece com os avós, os primos, a mãe, o pai, outras crianças, estranhos com que nos cruzamos, e que por nos cruzarmos muitas vezes, deixam de o ser. O dia-a-dia destas crianças é muito mais diversificado e plural em experiências e parceiros de interacção, do que o das crianças que, diariamente, passam muitas horas do seu dia activo, vigil, no mesmo lugar, com os mesmos parceiros. E o dia-a-dia, das crianças que vão à escola, não é igual para todas, só porque frequentam a mesma escola. A mesma sala. As experiências que duas crianças têm, na mesma sala, com o mesmo educador/professor, são experiências distintas. Umas são de qualidade, e favorecem a socialização e o desenvolvimento global, outras não são, e facilitam a exclusão.
Viver e deixar viver.

O que é bom para mim, é bom, porque é para mim, e sou eu e outro, outro eu, e esta dança corre bem. Mas isso não quer dizer que seja uma boa dança para outro que não sou. Mesmo que o outro seja da mesma idade, do mesmo sexo, do mesmo tamanho, da mesma cor. Cada um é isso mesmo. Um.
(b). Independência.
Na minha investigação actual, em qualidade das relações no pré-escolar (relações educador-criança e criança-criança), utilizo uma medida da qualidade da relação educador-crian
ça, que avalia três dimensões. Embora eu só utilize duas. A “short-form”, inclui a proximidade e o conflito. O instrumento original (long-form), inclui também a dependência. Esta sub-escala tem sido cada vez menos utilizada. Parece que, antes, há uns anos, para crianças desta idade, ter um “score” de elevada dependência relativamente ao educador, era bom. A criança é pequena, precisa de relações de confiança, e a confiança e a segurança dependem de um adulto próximo, de onde se parte e para onde se regressa. Nos Estados Unidos e, gradualmente, nos países que são culturalmente descritos como mais individualistas (e menos colectivistas), a dependência significa um “score” menor, em termos de qualidade da relação. A criança autónoma, capaz, é entendida como a

criança que não precisa do adulto. A criança que resolve a sua vida, que parte e que não precisa de regressar. Vivemos num tempo de urgência de autonomia, mas como reflecte num artigo do Público a investigadora Margarida Gaspar de Matos, também a propósito do relatório da OMS (consultar: https://www.publico.pt/…/em-portugal-a-falta-de-autonomia-d…), os adolescentes portugueses parecem sofrer de grande falta de autonomia.
E a mim, parece-me que esta tendência moderna (mas muito pouco genial) de lançar os miúdos para a autonomia, para a separação, logo ao 5 ou 6 meses, porque, para além de chorarem e protestarem muito menos, habituam-se logo (cá está, socialização), tem muito que se lhe diga. Parece-me, e isto tem muito, muito que ver com a minha experiência, quer enquanto mãe, quer enquanto
investigadora, que o tempo que se passa em proximidade com os principais cuidadores, as principais fontes de afecto e de segurança, não é nunca demasiado. Quanto mais seguros, maior a capacidade para aumentar as distâncias, a exploração. Terá de partir de base segura, na linguagem da vinculação, de Bowlby e Ainsworth e outros menos famosos que se dedicam ao tema.
Interessante esta ambiguidade e este preconceito relativamente a dependência que é, afinal, a partir de onde se edifica a independência. E ser independente, esclareça-se, não é não precisar do outro. Da mesma forma que ser livre, digo eu, não é fazer o que apetece, sempre. Vi na semana passada o primeiro filme de uma triologia do realizador Krzysztof Kieslowski. “Troi couleours: Bleu”. O filme explora a ideia de liberdade a partir da perda. A liberdade a partir da ausência de relações.
Parece-me, dos poucos dos 500 que conheço e dos mais de 4000 que não conheço, que a liberdade one nos imaginamos não terá de emergir do silêncio, do abandono, da abstracção. Dos que conheço, a liberdade onde nos imaginamos, é a da relação, a do tempo, do tempo para existir e ser mais completo.
Existir.
Para que se reformulem as perguntas às crianças e jovens. “O que queres ser quando fores grande?”, tem a sua importância. Projectar, idear, imaginar, sonhar, são fundamentais. “Então e as notas? És bom aluno? Passaste de ano?

Então e não há mais nada?
Uma pessoa é uma pessoa até entrar para a escola. Depois, é um aluno. Mesmo fora da escola. Isto não me parece grande, nem bom, nem melhor, nem socializador, nem promotor da independência. Parece-me redutor, pobre, desperdício, medíocre, desvalorizador. Muito pouco global. Muito pouco em consonância com a estratégia europeia Horizon 2020. Muito nada a ver com os resultados do último relatório da Felicidade no Mundo (existe mesmo, e está aqui para quem quiser:

http://worldhappiness.report/…/up…/sites/2/2015/04/WHR15.pdf).
Parece-me que precisamos todos de parar um pouco. De pensar um pouco. De sentir um pouco mais. De observar. De dizer. Mas também de ouvir. Eu, cuja genética me premiou com duas belas orelhas descoladas, incorrecção muito frequente que tem lugar cativo na cirurgia plástica, sou muito sensível ao som, às melodias, à (des)harmonia. E duvido que a cirurgia me tivesse tornado mais sociável ou independente. Só me tornaria mais igual. Por fora. As diferenças não têm de ser incorrecções. Precisamos todos de parar um pouco.

Viver e deixar viver.

Eu, sou só eu.

Inês Peceguina