Arcaísmo Iminente de Fim de Ano: Coisas de(a) Família

Arcaísmo Iminente de Fim de Ano: Coisas de(a) Família

(Tradução: Sobre o Referencial de Educação para a Saúde, ou como falar sobre interrupção voluntária da gravidez aos pequenos de 10 anos)

 

Terminou antes de ontem, dia 19 de Dezembro de 2016, o período de consulta pública relativamente ao Referencial de Educação para a Saúde. É verdade, o público potencialmente interessando – a família – teve oportunidade de se dizer. Embora, talvez impressão minha, só se tenha falado no assunto, um dia antes de se anunciar que já estava no fim. Ops… Deve ser a época Festiva. Os pais andam cada vez mais distraídos com o que vai sendo publicado na página da Direcção Geral da Educação (DGE). E a escola, parece-me, também se anda a esquecer um pouco de enviar pela caderneta os recados mesmo importantes. Deve ser a proximidade do fim de ano. Os dias muito pequeninos, a não chegar.

Então é assim: Em colaboração com o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) e também com a Direcção Geral da Saúde, a DGE apresentou um documento que se chama “Referencial de Educação para a Saúde”, um documento guia, destinado a tornar crianças e jovens grandes literados em matéria de saúde, adopção de estilos de vida saudável e competências sociais e emocionais. Uau! Tão queridos… Agora só falta reformular o conceito de cantina da escola, não obrigando as crianças nutrir-se via “puré de batata”, que elas muitas vezes até gostam, mas que para além de batata, e por ser em doses industriais e ser preciso que se mantenha no armazém por muitos e bons meses, pode ainda conter: sódio bisulfatos, hidroxianisol butilado (diz que nada bom para a saúde!), uma mistura de óleos, incluindo de soja, de girassol e de coco, o que por si só não é mau, mas que, de modo a aumentar o seu período de vida na prateleira, podem ser por vezes hidrogenados, adoçantes, tais como xarope de milho, maltodextrina, e outros açucares, leite de vaca, em pó, com certeza, obtidos geralmente como sub-produtos do processo de fabrico do queijo, manteiga e/ou manteiga em pó, preservantes, tais como ácido cítrico (não, não é sumo de laranja ou de limão), ácido pirofosfático e fosfato dipotássio e, por fim, podem ainda oferecer aos pequenos corpos em desenvolvimento, dióxido de silicone para impedir que os flocos de batata se agrupem e façam grumos desagradáveis que depois embaçam as crianças e as fazem soluçar. Ah, e falta só um pouco de sal, especiarias e sabores naturais e artificiais. Um verdadeiro elixir de saúde!

Ou muito me engano, ou educar para a saúde e para a adopção de estilos de vida saudável, começa logo pelas coisinhas mais simples, tais como o que os pequenos mastigam e depois engolem. Mas adiante…      

Clicando neste link – http://www.dge.mec.pt/educacao-para-saude, diz assim: “em contexto escolar, educar para a saúde consiste em dotar as crianças e os jovens de conhecimentos, atitudes e valores que os ajudem a fazer opções e a tomar decisões adequadas à sua saúde e ao seu bem-estar físico, social e mental, bem como a saúde dos que os rodeiam, conferindo-lhes assim um papel interventivo”. Perfeito! Oh, mas espera, então e aquela questão mais antiga, escrita na Constituição da República Portuguesa, Artigo 43º, alínea 2, em 1976, que diz mais ou menos assim: “… o estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”. Impressão minha, ou há aqui conflito?! Esclareça-se, neste preciso momento, que todos os movimentos de genuína preocupação com a saúde e o desenvolvimento das crianças e jovens, são de louvar, de apreciar, de incentivar. Mas, fazer estes movimentos sem considerar o envolvimento, a responsabilidade e os direitos daqueles que são, afinal, os principais responsáveis e interessados nestas matérias (os pais, a família), parece um pouco… como dizer… despótico?

Para além disso, há a questão de, pelo menos para mim, ser pouco clara a fronteira, o fio fininho a partir do qual a instrução pragmática, desprovida de juízos de valor, de inclinações, tendências, de pessoalidade, passa a ser abastecida nisto tudo. E atenção, que nunca em momento algum, pode a escola inibir-se de passar valores e crenças e atitudes, pela simples razão da escola ser confeccionada por pessoas e as pessoas, seres humanos (uns mais que outros), operarem sempre enquanto tal. Mas, e aqui, ou daqui parte a divergência e a transposição declarada, evidente e sem pudores, os conteúdos sobre os quais se debruça este documento, são absolutamente radiosos e férteis na produção de significados pessoais, de valores, de ideologias, de filosofias e de outras sabedorias e razões que fazem com que, no meu entender, de mãe, mas sobretudo, de criatura-pessoa, seja altamente arriscado pensar que se pode literar as pessoazinhas nestes campos, de forma exemplar no que toca à isenção. E depois, mesmo que fosse possível, quem é que vai fazer isto e de que modo? Como é que nestes assuntos, sobre os quais não há (graças a várias entidades) consenso, o que torna a humanidade um lugar mais rico, colorido, interessante e desafiador (pelo menos para mim), nestas matérias onde até podemos concordar nalgumas coisas (por exemplo, na absoluta desnecessidade do puré de batata instantâneo, tal como na importância de facilitar o desenvolvimento do pensamento crítico, coisa que a escola terá sempre grande dificuldade em fazer acontecer, dada a sua condição a-democrática), nestas questões, que são do domínio da intimidade, da relação, da pele, do afecto, da paixão, da oxitocina, do cortisol, da família, como é que se faz? Voltamos sempre à interrogação, só porque estão todos na mesma idade cronológica, estão todos no mesmo lugar de entendimento? Não é também (ou absolutamente) uma decisão daquele que está a construir a sua aprendizagem, escolher quando e de que forma colocar as suas questões? Ah, mas há crianças cujas vivências familiares, cujos habitats não permitem que se façam questões, ou então favorece a construção de racionais distorcidos, tóxicos, com graves repercussões para o desenvolvimento… De acordo. Então, mais uma vez, que se trabalhe com as famílias. Onde elas estiverem. Com a sua linguagem, as suas dificuldades e fragilidades, os seus não saberes. Que se promova mesmo o respeito. E que se admita que há lugares que são muito escuros e muito duros e muito feios. E que não se salvam assim criancinhas. Sou uma optimista. Acredito que até a pessoa mais porcaria pode ter alguma coisa de bom para ser neste mundo. E que andar em contra-mão (ou contra-mãe) dá sempre mau resultado, por isso mais vale, mesmo que pouco, que se considere que a Mãe (agora com “m” maiúsculo, para englobar todos os cuidadores genuínos), porque é para lá que regressam e de onde partem, uns mais que outros, os que Nela e nas suas circunstâncias, se fizeram existir.

Inês Peceguina