A RAÍZ DE TODOS OS MALES: Turmas Mistas

-Afinal a diversidade faz mal ao sucesso dos alunos? Ou, a escola não sabe mesmo o que fazer se não andarem todos em fila indiana?

(…) E há também, na minha perspectiva, um desamor, um desdém, uma desconsideração por quem se importa mesmo e por quem, feitas as contas,

mais palavra menos palavra, se vai construindo a meia-identidade, a meiopotencial, a meia-felicidade, a meio, ao meio, com todas as consequências,

umas mais reversíveis que outras, que a falta de existir plenamente, logo durante a infância, faz depois pela vida fora (…)

De acordo com o portal PORTDATA, uma base de dados sobre Portugal contemporâneo, entre o pré-escolar e o ensino superior, existem actualmente, matriculados no ensino público, 1 668 023 alunos, mais um menos um (PORDATA).

Bastantes, portanto.

No 1º ciclo do Ensino Básico (crianças entre os 6/7 e os 9/10 anos), existem actualmente 226 turmas mistas. Ou seja, esclarece o artigo publicado pela

Educare a 15 de Fevereiro (Educare), alunos que estão em diferentes anos de escolaridade.

Ou seja, esclareço eu, pessoas que têm competências, motivações, habilidades, interesses, maturidades, diferentes. Em diferentes tamanhos, feitios e outras qualidades.

Ou seja, esclareço mais um pouco, pessoas-aluno que são o oposto das crianças-aluno que estão todas no mesmo ano de escolaridade. Porque essas, já se sabe, se fizeram o treino pré-escolar direitinho, então agora são todas mais ou menos farinha do mesmo saco, macias, com o mesmo relevo, a mesma topografia, o mesmo traço, a mesma vontade e a mesma capacidade para nos seus receptáculos neuronais, deixarem entrar o que lhes é enviado lá do outro lado.

Sem muito ruído. E mesmo que sejam um pouco diferentes, não o serão em grau suficiente para dar trabalho a sério. As que dão (trabalho a sério, entenda-se), têm os devidos decretos e abrigos e apoios que têm nomes de números.

E se correr mal, não fazem parte da responsabilidade daqueles a quem se atribui toda a responsabilidade pelo processo quando, na verdade, a responsabilidade é (devia ser) partilhada, sendo tanto ou maior a do outro, dos outros (a criança, a família) do que daquele que ali está e de quem se esperam coisas que são patetas de esperar, porque as crianças são afinal pessoas que são mesmo diferentes e que têm personalidades e outras particularidades que enfim… Não gostam todas de
sopa e nem são bonitas ou feias por causa disso. O assunto é muito mais complexo.

Ou não?!

Talvez não. Talvez seja bastante simples afinal.

Estas turmas mistas (226), representam um total de 3000 alunos. Fazendo as contas… para saber o rácio, a razão dos males, temos uma proporção de 0, 0018. E é isto. É isto, estes 0, 0018 alunos são, segundo o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), o Professor David Justino, uma “chaga social” (descrição do próprio, devidamente citada entre aspas no artigo da Educare). Para o presidente do CNE, reforçam, este é um dos maiores factores de insucesso.

Ena! Quem diria? Estas crianças mistas. 0,00179854 crianças entre os 6 e os 10. Tão mistas que arruínam todo o imóvel escolar.

Assim não dá. Assim não dá.

No documento “Perfil dos alunos à saída da Escolaridade Obrigatória” (com 23 páginas), sobre o qual escrevi na publicação anterior, a palavra inclusão (ou outras da família), aparece apenas 3 vezes. Talvez seja sintomático…

Contudo, outras palavras no mesmo documento fazem pensar que afinal é possível que pessoas-aluno que são cada um a sua própria pessoa, possam co-existir na mesma dimensão espácio-temporal. E assim pontuam:

– Liberdade: 4 valores

– Consciência: 5 valores

– Diversidade e autonomia: 7 valores ex aequo

– Autonomia: 9 valores

– Diferença e Pessoa: 11 valores ex aequo

Mais uma vez sente-se uma pontinha de esquizofrenia nisto tudo.

O que se escreve.

Uma desconexão, uma incoerência entre o que se deseja, o que se elabora e articula na escrita, no plano, no projecto, e depois o que se diz e, mais perigoso, o que se faz (e o que não se faz).

E há também, na minha perspectiva, um desamor, um desdém, uma desconsideração por quem se importa mesmo e por quem, feitas as contas, mais palavra menos palavra, se vai construindo a meia-identidade, a meiopotencial, a meia-felicidade, a meio, ao meio, com todas as consequências, umas mais reversíveis que outras, que a falta de existir plenamente, logo
durante a infância, faz depois pela vida fora.

Se não fossem estes 0, 0018 alunos, estava tudo quase bem. Certo?

Inês Peceguina