A escol(h)a.

 

14444736_1251050721582073_2493584933997985737_oComeça (ou começou) hoje o Outono. E desde há 22 dias, no dia em que se tornou Setembro, ou ainda em Agosto, sim, em Agosto ainda, tiveram início os rituais que marcam o início de mais um ano lectivo. É a forma actual mais comum para dizer do tempo. Tempo lectivo versus tempo não lectivo. E neste tempo lectivo, que regressa, sempre colorido e caro e temido e desejado e comparado com cada um dos anteriores, tudo se transforma num pequeno espojinho.

Um espojinho é um pequeno tornado, mesmo muito pequeno, faz levantar um pouco o pó e as folhas, se as houver, bem como o lixo mas leve (esse, há sempre), mas tem as mesmas propriedades físicas dos tornado. O movimento é centrípeto, e a percepção de que, estando por perto, seja impossível escapar, pelo menos, a um ou dois espirros e a ligeira comichão de olhos. É o espojinho da escola. São vários, como um coro, simultâneos, aparentemente harmónicos e, para a grande maioria de nós, incontornável. Estão por todo o lado. E a partir do momento em que se erguem, trazendo tudo pela frente (ou no seu interior, para ser mais precisa e respeitando a lógica do espojinho), criam-se inventários infinitos de necessidades imediatas e inadiáveis, que começam nos pés – sapatos e meias novas, e terminam no topo, que será o equivalente ao cérebro, cuja manutenção, em época lectiva, requer múltiplos e insubstituíveis manuais, esquadros, réguas, transferidores, vários conjuntos de canetas de bico de feltro, AB (nunca A, que rasga tudo, ou B, que tudo borra), uma resma de papel, e outros e outros e outros que podem ser consultados nos respectivos lugares. Tudo isto, por cada par de pés, ou singular cérebro, fazendo suspeitar que a questão da gestão dos recursos, ou meramente da partilha não está abrangida pelas necessidades imediatas e inadiáveis.

Neste espojinho cuja missão última será a de garantir que, nos próximos 10 meses (mais ou menos semana) a aprendizagem e o desenvolvimento possam acontecer ao mais alto nível, está também latente, sob a forma de impressão, de coisa não dita que, sem verificar com um sinal positivo que cada um destes instrumentos a partir dos quais se abrem as portas, janelas, e outras entradas para conhecimento, será altamente improvável que o aprendiz possa prosperar.

Ou será que pode?

Ao mesmo tempo que se levanta o espojinho, final de Agosto, início de Setembro e até à colocação plena dos professores que, diga-se, nunca estiveram, tão desanimados com tudo o que respeita à Escol(h)a, como nesta precisa estação escolar (aqui), ao mesmo tempo que ocorre o espojinho, ocorre também outro fenómeno sócio-psico-metereológico que é mais ou menos como um espojinho, mas ao contrário. Em vez de convergir, diverge. É movido por uma força centrífuga, e culmina numa espécie de universo paralelo, ou de pequeno planeta, talvez demasiado pequeno para ser admitido enquanto tal mas, seguramente, em expansão. Não tem ainda um nome da física, que lho conheça. Mas trata-se, categoricamente, de outra Escol(h)a. Nos últimos meses, comportando-se mais à semelhança da uma forma que converge, apareceu sob o nome inglês de ASDE, que quer dizer Alliance for Self Directed Education ou, na tradução portuguesa, Aliança para a Educação Auto-Orientada (aqui).

Isto agora, para quem entra pela primeira vez neste universo, pode ser altamente desorganizador. Por muitos, muitos motivos. Pode gerar o escárnio e o mal dizer. Pode fazer crescer vontades de insulto e mau trato e sair para a rua (que era o equivalente ao que hoje é o Facebook, ah, e a ASDE, também tem página!), pode gerar reacções galvânicas, náuseas e outras manifestações do corpo quando enfrenta o choque. Seja como for, o mais preocupante, é se não propiciar absolutamente nada. Nesse caso, será sensato falar em absolutismo, em fundamentalismo. Que são conceitos próximos e que descrevem uma elaborada carapaça ou teia que envolve toda a pessoa e que não deixa entrar nada lá para dentro, nem sair nada, de dentro para fora.

Voltando à Aliança. Trata-se de um movimento que, agora, se materializou sob esta forma e que tem vindo, desde há muitos anos, imagine-se, a lutar pelos direitos dos aprendizes, em particular dos que cabem nas categorias da infância e do jovem. É descrita como uma “revolução pacífica, levada a cabo por pessoas com bravura suficiente para se afastarem das escolas coercivas”, que em Portugal são, sensivelmente, todas. Estas pessoas bravas, assim descritas, apesar de não cumprirem a lista (aquela lista e, sobretudo, os manuais), são ainda caracterizadas como “pessoas suficientemente inteligentes para resistir a esta ideia que é vendida por várias empresas/instituições (as editoras sendo apenas uma) de que a escolarização é essencial ao sucesso na nossa cultura”.

A escol(h)a.

E então, prossegue. “As nossas escolas falham porque se baseiam na premissa errada de que a educação é qualquer coisa que se faz às pessoas (crianças e jovens), por profissionais, e não qualquer coisa que as pessoas fazem por si próprias.

Durante as últimas décadas, o complexo educação-industrial tem tentado remediar falhas óbvias da escolarização coerciva, acrescentando ainda mais coerção, ao ponto de muitas crianças estarem, literalmente, a enlouquecer. É tempo de parar esta demência. É tempo de parar de aceitar diagnósticos para aquelas crianças que não querem ou não podem estar sossegadas (e sentadas, porque na opção horizontal, acho que não é aceitável), durante trabalhos e avaliações que são aborrecidos, irrelevantes, um desperdício de tempo e ainda bons a fazer crescer a ansiedade. E é tempo de parar de aplaudir e elogiar as crianças que estão dispostas (será que estariam, se lhes fosse concedida opção de escolha?) a, sentadas, passar por tudo isto, porque aquilo que é promovido por esse elogio é a conformidade, a passividade, a ausência de pensamento próprio, a obediência, e o falso orgulho por conquistas sem qualquer sentido. É tempo de dizer não.

Cada vez mais pessoas dizem não. Mais e mais aprendizes, com o apoio das suas famílias, estão a sair das escolas coercivas e a escolher a educação auto-regulada, em casa e na comunidade, ou em escolas democráticas, onde os aprendizes são – mesmo – responsáveis pelas suas próprias vidas (ainda não temos por cá, porque isso parece que faz diminuir o consumo). A revolução começou e está em aceleração. E vai continuar a acelerar (até faz lembrar o espojinho), não através do confronto com o complexo educação-industrial e na tentativa de mudar este edifício, mas através da capacitação das pessoas para o abandonarem, de forma a que se torne cada vez mais irrelevante”. (Como um minúsculo espojinho, que já não faz nem espirrar, nem coçar os olhos, embora ainda possa conter algum lixo).

Todos os anos, nos últimos anos, a percentagem daqueles que optam por abandonar a escol(h)a coerciva tem aumentado. Nalgum momento, não muito distante, chegaremos a um ponto de ruptura. Chegaremos ao tempo em que todos já conhecem várias famílias que abandonaram a escol(h)a coerciva optando por uma trajectória de educação auto-regulada, de modo a que este tipo de escol(h)a deixará de ser entendida como uma coisa estranha para se fazer.” Quando isso acontecer, será como uma procissão de espojinhos múltiplos, estes outros espojinhos. “E as escolas, tal como hoje as conhecemos, vão ficar vazias. Quando as pessoas descobrirem que a liberdade resulta, então a coerção deixa de ser necessária e mais pessoas escolherão a liberdade. As famílias que optarem pela liberdade, tornar-se-ão obstáculos à aprovação de fundos para a escola coerciva, favorecendo a aplicação desses fundos em oportunidades e recursos públicos de educação – tais como centros de aprendizagem e escolas democráticas – que as pessoas podem, ou não, usar da forma como escolherem.

Todas as pessoas, independentemente do estatuto sócio-económico, têm o direito a controlar a sua educação. O direito à auto-determinação em educação deveria ser um direito humano, democrático fundamental e, no futuro, será”.

É isto. Como os inventários que chegam em final de Verão, início de Outono. Deveria chegar também alguma escolha. Ou pelo menos, mesmo que não chegue, de facto, a escolha, que chegasse a ideia de que existe outra escol(h)a.

E que são cada vez mais os que fazem um pouco mais do que queixar-se dos trabalhos de casa. Fosse esse o menor dos males. Numa escol(h)a que para a maioria começa e termina sem escolha nenhuma, parte-se a pessoa aos bocadinhos indizíveis. E a pessoa continua a parecer pessoa.

Imagine-se como seria se o pudesse ser a maioria dos dias da sua vida?

Inês Peceguina