55 palavras por minuto.

16987_996675637019584_6911345579641511679_nReceita para apagar pessoas:
1. Pais inseguros, sem família por perto que possa ajudar, de preferência que tenham já sido abençoados com as maravilhas da creche quando eram eles bebés e depois crianças.
2. Amigos do tipo A – sem filhos e que, com o tempo visitam menos, telefonam menos, aparecem menos, mas que, ainda assim, valorizam a coragem destes novos pais e, se pudessem claro, ajudavam mais um bocadinho.
Ou,
2.1. Amigos do tipo B – já com filhos e cheios de certezas sobre temáticas simples, directas e eficazes (mas ineficientes), tais como: (a) o bebé deve dormir na sua cama o mais rápido possível, porque pode ser esmagado pelos pais e porque a mãe precisa de dormir sossegada; (b) se está sempre a pedir mama, é porque o leite é fraquinho, o que quer dizer, suplemento (que não é leite, atenção); (c) as crianças precisam de outras crianças para se desenvolverem, de modo que deverão ir para a escola logo cedo (assim habituam-se logo e nem protestam muito), que para além dos amigos, ensina logo a ler e escrever e essas coisas. Aliás, se for uma escola como deve ser, no final do 1º ano, do 1º ciclo, a criança (de 6 anos) já consegue “ler um texto com articulação e entoação razoavelmente correctas, a uma velocidade de leitura, no mínimo, de 55 palavras por minuto” (segundo as metas curriculares para Português).
3. Misturar tudo muito rapidamente, para não dar tempo às emoções e, depois, ao pensamento.
4. Deixar marinar durante 12,500 horas (o tempo que uma criança pode passar na escola até aos 5 anos).
5. Cozinhar em lume brando durante 12,000 horas (o tempo que uma criança/jovem pode passar na escola entre os 6 e os 18 anos).
6. Caso levante fervura, acrescentar o máximo de actividades extra-curriculares, em particular as que favoreçam a aprendizagem. E se forem em jeito de brincadeira, que seja planeada por adultos, de modo a que, enquanto brincam, aprendam alguma coisa (como se fosse possível não aprender coisas infinitas só a brincar).
7. Servir morno.
8. Esperar que nos próximos 4 ou 5 anos de faculdade tenha juízo e competências de empreendedor porque o mercado de trabalho a sério, já se sabe, está pouco interessado em currículos e em médias, mas muito, muito interessado em pessoas criativas, curiosas, que correm riscos, que inovam, que empreendem, pessoas “Knowmad” (aconselhamos a pesquisa via Web).

Diz a Estratégia 2020 da União Europeia, que o sucesso da Europa, entre outras questões, implica a promoção da criatividade e da inovação, de modo a que todas as crianças possam desenvolver ao máximo, os seus talentos.

Diz o relatório da UNICEF (2007), que Portugal está no último lugar, entre 24 países (ditos ricos), numa medida que designaram por “Bem-Estar Educativo” (Educational Well-Being), e que avalia o referido bem estar, em função do Artigo 29 da Convenção dos Direitos da Criança que refere o direito “ao desenvolvimento da personalidade, talentos, habilidades mentais e físicas, da criança, ao máximo potencial (“the development of the child’s personality, talents and mental and physical abilities to their fullest potential”, United Nations, 1989).

Decorre, portanto, que a missão de considerar que se fez grande coisa pelo futuro da criança (ou faz a criança grande coisa), quando no final do 1º ciclo consegue ler um texto com articulação e entoação razoavelmente correctas, a uma velocidade de leitura, no mínimo, de 55 palavras por minuto, parece, no mínimo, absurda.

E, sem em vez de 55 palavras, forem 54, ou 53, ou 52? Qual é o “chão”, como dizemos em investigação? E qual é o “tecto”? Ou seja, se a criança no final do 1º ano já debitar 90 palavras por minuto (a meta para o 2º ano), transita imediatamente para o 3º ano? Qual é a base empírica deste número? Onde, nestas metas, figura a individualidade, a criatividade, os talentos, personalidade, a inovação? Como é que, seguindo esta receita que para apagar pessoas, se pode estar em sintonia com a estratégia da UE e resolver a situação do mal-estar educativo que nos coloca em último lugar (não obstante o facto de, pessoalmente, não ter grande interesse por rankings e médias).

55 palavras por minuto. Com articulação e entoação. 55 palavras por minuto. Entre o colosso de materiais escolares que drena as finanças dos pais quando chegam das férias de Agosto, acrescente-se um cronómetro.

Como manifestou várias vezes, por escrito ou por voz, “toda a educação é um acto politico” (Paulo Freire), é transparente a missão deste acto em Portugal. É evidente e exuberante. Não opera sub-repticiamente. Opera com toda a luz, cintila e ofusca e entorpece. Porque se assim não fosse, seria evidente que os pais, os educadores, os professores e as próprias crianças e jovens diriam não. Não, obrigada(o). Aos 6 anos a minha criança tem mais que fazer que passar um número enorme de horas sentada a aprender um código sobre o qual pode ainda nem ter interesse enquanto eu, de cronómetro na mão, a incentivo: “ahhh, mais um bocadinho, já conseguiste 49, toma lá mais um chocolate!” Não, obrigada(o), não preciso de 703 descritores (só para Português e Matemática). Preciso de existir. Preciso de brincar. Preciso de tempo meu, decidido por mim, a fazer o que eu quiser.

Estudos recentes mostram que a adopção de estilos mais pedagógicos (directivos), durante o pré-escolar (e.g., instrução explícita), na verdade constrangem a exploração e a descoberta da criança (Bonawitz, Shafto, Gweon, Goodman, Spelke, & Schulz, 2011). Mais, em modelos de pré-escolar do tipo “dirigidos pela criança” (child self-directed), os resultados são superiores aos das crianças que experimentaram modelos mais didácticos/académicos, incluindo ao nível académico (Marcon, 2002; Suggatea, Schaughencyb, & Reese, 2013). Dados do meu trabalho, não publicados, com crianças portuguesas, indicam associações significativas entre a sensibilidade do educador relativamente às preocupações das crianças, e as suas competências sociais e competências de literacia.

55 palavras por minuto corresponde a zero, em comparação ao que uma criança consegue fazer, ser, aprender, desejar, criar, ousar, desistir, saltar, persistir, inventar, recusar… 55 palavras por minuto, 703 descritores (não 702 ou 701), correspondem a zero em existência. São a receita perfeita para apagar pessoas.
Sou só eu, ou já é tempo de fazer outras experiências gastronómicas? Para mim, quero “gourmet”. Não é só delicioso ao paladar, é também a estética, a arte, a criatividade, a inovação, o talento… até faz lembrar a Estratégia 2020 da UE!

Inês Peceguina