Movimento Educação Livre

Testemunhos

Com os testemunhos que se seguem, queremos partilhar vivências, sentimentos, dúvidas e incertezas, lutas e sucessos de quem quer educar numa perspetiva de Educação Livre.

Esperemos que ao ler outras experiências e “formas de estar” na educação, se inspire…

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[expand title=”Há seis anos comecei a ler blogs do outro lado do oceano, que me entraram pelo computador adentro enquanto a minha barriga crescia e crescia… e que me foram mostrando uma realidade até aqui desconhecida- o homeschooling.”]

Inicialmente achei uma ideia estapafúrdia, uma coisa meio estranha… mas aos poucos rendi-me à doçura de vidas que decorrem a seis mil quilómetros  da minha casa. Vidas de crianças que têm uma infância privilegiada de afetos, de convívio com a família, com a comunidade. Vidas muito distintas das que, possivelmente, se desenhavam para a nossa família, e para a minha filha.

Devagarinho, dia após dia, fui caminhando e crescendo na aventura da maternidade. E continuei a ler blogs, que me levaram a ler diferentes autores, entre os quais pedagogos, professores, etc. Houve um que me marcou especialmente, o John Holt.

Achei os seus livros uma provocação tremenda… não queria acreditar que fosse possível uma educação sem uma escola física, formal, espartilhada das nove-às-cinco, e com trabalhos de casa das sete-às-oito. E para mais, dirigida em grande parte pelas próprias crianças! Pois sim. Os miúdos dão-nos a volta, e constatei que a minha filha, inacreditavelmente, ia fazendo e alcançando os seus ‘milestones’ tal e qual como Jonh descrevia… Pasmei. E, depois, agi. Procurei pela internet fora se, eventualmente, por algum golpe de sorte, seria o homeschooling legal em Portugal… Não me esqueço pela mão de quem o descobri, já lá vão três anos, a Paula, autora do blog “Aprender sem escola”. A ela, o meu muito obrigada.

A partir desse momento foi germinando em mim a utopia de ter a minha filha em ED. Houve dias em que amaldiçoei a internet e tudo o que descobri através dela. Houve momentos em que preferia mil vezes ter ficado na ignorância. A ignorância tem um lado muito feliz. Não sabendo de certas coisas, somos livres e felizes que nem um passarinho na primavera.

Mas não consegui voltar a cara para o outro lado. Talvez porque me assustei com os jardins de infância em que a minha filha entretanto andou. Quero acreditar que há mais do que isto. E entretanto virei a minha vida do avesso e comecei a pensar seriamente no ED. E o que outrora era uma utopia passou a ser um sonho. E como sabemos, o homem sonha e a obra nasce- assim nasceu a MEL e assim também há de nascer o primeiro espaço alternativo para crianças e a comunidade em Coimbra, a minha cidade.

Para mim o ensino doméstico, ou para ser mais justo, o ensino “fora da escola”, ou melhor ainda, a educação livre!, pois entre o ballet, o inglês, as idas à biblioteca e ludoteca locais, os workshops e oficinas, a aprendizagem não está naturalmente confinada à nossa casa.

No entanto tentamos privilegiar momentos de sossego, de intimidade, na nossa casa. Acho que nos posso definir como aspirantes a uma vida mais simples, a um ritmo mais lento, em que se vive o momento e não o futuro.

Assim, numa tentativa de seguir os princípios de um aprendizagem natural, tão simples e natural como aprender a andar (a minha filha só andou aos 17 meses, e ninguém imagina aos 14 meses dizer a um bebé que tem até 6ª feira para o fazer!), a nadar por imitação e sem treino formal (aos 5 anos), a ler e a escrever (aos 5 anos também, mais uma vez por mimetização e sem treino formal)… A ideia é preservar o entusiasmo e a vontade inata de aprender.

Acima de tudo é uma questão de confiança, de fé, nas crianças. E eu privilegio essa ligação, e tento honrá-la, ajudando a minha filha a prosseguir os seus interesses ou despertando-a para outros, que seguirá ou não.

Como Einstein dizia, a lógica leva-nos de A para B, mas a imaginação leva-nos a qualquer parte.

Hoje em dia, a opção de uma educação livre é tão válida como outra qualquer. Assim como o ensino público ou o ensino privado o serão para outras famílias. Não somos todos iguais, é delicioso haver diversidade, e respeito totalmente as escolhas que cada família faz. Naturalmente, espero que respeitem a minha também.[/expand]

[expand title=”Somos uma família monoparental neste momento. Temos ideias de melhorar o mundo, fazendo o possível por – quer nas profissões, quer na qualidade de cidadãos ou simples consumidores – melhorar o mundo em que vivemos.”]
Interessámo-nos pelo ED quando fomos estudantes…

O facto da vida não ser propriamente eterna levou-me – falo em nome pessoal agora – a sentir que algo devia ser feito no sentido de tornar a formação de cada pessoa mais integral e adaptada às suas características únicas. Que a aprendizagem da vida tem que ser voluntária, para ser eficaz e deliciosa.

As reações caricatas repetem-se com frequência, mas não propriamente por parte da família, que me tem deixado assumir o papel de mãe, sem intromissões, felizmente.

No entanto, muitos amigos repetem a velha e desgastada frase: “Tu não sabes o que é melhor para eles”. Respondo-lhes sempre o mesmo, claro: “Por isso mesmo, opto pelo que me parece o melhor, pois também não sei se é o melhor a escola convencional”.

Conheço algumas famílias em ED, mas não temos ainda uma estrutura de encontros e partilha consistente. Estou à espera do MEL!!!!!!!!!!!!!

O maior desafio até hoje foi acreditar neles – nos filhos – desacreditando nas estruturas de massa.

A maior dádiva do ED para nós foi ver os filhos seguirem a sua própria forma, ao mesmo tempo que vão crescendo.

Uma dica para uma família a iniciar o ED seria: Nunca dar ouvidos aos velhos do Restelo. NADA COMO A NOSSA INTUIÇÃO E AMOR PARA SABER O MELHOR QUE TEMOS A FAZER POR QUEM DEITÁMOS A ESTE MUNDO.

A MEL é importante porque as famílias sentem-se muito isoladas e desconhecem os seus reais direitos, legalidade e também porque juntos poderemos contribuir para alterar sistemas obsoletos num sector essencial, que é a formação dos indivíduos.

O futuro do mundo dependerá da boa educação e esta só poderá passar pela liberdade de ensinar e aprender.[/expand]

[expand title=”Cá em casa somos cinco: um pai (42 anos), uma mãe (40 anos) e três filhotes (os rapazes com 13 e 11 anos e a miúda com 9). Na verdade somos seis, a Cassie (uma São Bernardo com 4 anos) também é da família, claro! Verdade, verdadinha, somos muitos mais, a contar com um casal de lagartos residentes, os pássaros, as formigas, as aranhas, os gatos, os musaranhos adotivos, e um ouriço que gosta de vir passar férias à Ericeira.”]

Julgo que, como casal/família, fizemos algumas escolhas importantes que nos foram levando gradual e naturalmente ao ponto em que nos encontramos hoje. Tentámos, acima de tudo criar as condições para podermos ter um projeto de vida mais… mais… aliás, um verdadeiro projeto de VIDA, ponto.
O primeiro marco nessa concretização foi o momento em que decidimos procurar uma casa fora dos subúrbios, que nos permitisse respirar algum espaço livre, ter uma ou duas árvores para trepar e um pouco de terra para os miúdos se sentirem mais próximos da natureza e crescerem mais livres… A partir daqui, tudo foi acontecendo muito naturalmente… um passo a seguir ao outro…

Entretanto, o nosso primeiro filho nasceu e com ele começou a despertar em nós uma consciência muito forte acerca de… nem sei… de tudo… E agora? Como é?… Questionámo-nos bastante e antes ainda de sabermos o que queríamos efetivamente para ele, deparámo-nos com algumas certezas acerca do que definitivamente não queríamos… e não queríamos, de todo “entregá-lo” a outros para “cuidarem” dele, para o “educarem”, num contexto que para nós não fazia qualquer sentido. Foi por isso que decidimos inverter um pouco o rumo e arriscar um outro modo de vida, concretamente, no meu caso, em termos profissionais… E a verdade é que, em cada passo que íamos dando, descobríamos uma nova possibilidade. Esse foi o segundo grande marco importante em termos de decisões: criar uma estrutura que me permitisse por um lado a realização profissional, por outro lado, algum equilíbrio orçamental e, ao mesmo tempo estar com os meus filhos a tempo inteiro, enquanto eles fossem pequenos (que é como quem diz, até irem para a escola).

Nesta altura ainda não pensávamos em Ensino Doméstico… aliás, não sabíamos sequer que tal possibilidade existia, quanto mais que era legal no nosso país. Por isso os meus filhos, todos eles, iniciaram aos 6 anos, o seu percurso escolar regular numa escola pública. Curiosamente foi no contexto da minha atividade profissional que tomei conhecimento da modalidade de Ensino Doméstico, precisamente numa altura em que a minha filha mais nova, na altura no 2º ano do 1º ciclo começou a manifestar alguns sinais de… infelicidade, eu diria… em muito do que tinha que ver com a escola. Infelicidade é mesmo a melhor palavra que encontro para descrever o seu sentir, até porque não havia “verdadeiros problemas” na escola, não se pode dizer que houvesse “dificuldades de adaptação” evidentes, nem sequer “falta de aproveitamento”, não havia uma causa. Mas a falta de alegria era gritante, a infelicidade silenciosa, insidiosa tornou-se tão pesada que ficou impossível não lhe prestar atenção. Ah, as dores de barriga e as febres baixinhas constantes também ajudaram, claro…
Portanto, no final do 2º ano decidimos optar pela modalidade de ED para a nossa filha mais nova. Foi uma decisão ponderada mas não foi difícil de tomar, sobretudo porque dois dos vetores essenciais estariam à partida garantidos: por um lado, a minha formação académica e profissional, permitia-me assegurar com tranquilidade a parte pedagógica; por outro lado, pelas características da minha filha, foi sempre possível manter com ela um relacionamento muito construtivo e de muito respeito, pelo que não receámos que situações de eventual impasse em termos de dinâmica familiar, pudessem verdadeiramente ocorrer.

Neste momento, estamos no segundo ano de ED com a nossa filha e a grande dádiva que recebemos em todo este processo, foi sentir que ela recuperou a sua autoconfiança e criatividade, resgatou a sua liberdade para tentar, para arriscar e, o seu direito a errar sem medo de ser punida ou de se sentir uma perdedora. Recordou, enfim, a alegria de aprender e é feliz.
Com ela, até agora foi tudo muito tranquilo… o grande desafio dos últimos tempos tem sido perspetivarmos, enquanto família, a possibilidade de criarmos as condições para que também o nosso filho do meio possa, como é seu desejo, ter esta possibilidade na vida dele.

Naturalmente, com características muito diferentes das da irmã, foi preciso, para mim, como mãe, olhar para dentro, confrontar-me com os meus medos, uma e outra vez até começar a sentir-me preparada e capaz para assumir esta opção com este meu filho. Descobrir que a palavra-chave é a confiança e sentir que essa confiança existe e está só à espera de ser resgatada, foi sem dúvida, o grande desafio. Confiança nele, em mim, em nós como família. Perceber e aceitar que existem fortes probabilidades de estarmos prestes a iniciar uma viagem bem mais turbulenta e, ainda assim confiar que juntos vamos ser capazes de lidar com toda a re(des)construção que isso implica, tem sido a grande aprendizagem do momento. Porque vale a pena. A Liberdade é mesmo uma aventura que vale a pena ser vivida…[/expand]

[expand title=”Tive o meu filho aos 36 anos e, após quase 20 anos de relacionamento com o meu marido e sem filhos, a maternidade foi o ponto de partida para começar a ver tudo de forma diferente. Ou melhor, comecei a questionar certas coisas que, anteriormente, nunca teria questionado.”]

Durante a gravidez questionei-me sobre os exames prenatais e informei-me sobre o assunto. Depois veio a questão do parto natural e informei-me sobre o assunto. A seguir a lactância maternal, etc… Tudo isto me levou a observar o desenvolvimento do meu filho por um prisma objetivo e crítico, conseguindo perceber as diferenças que há entre fazer as coisas duma forma natural, consciente e responsável e de uma forma sem se questionar o porquê de se fazerem, só por que toda a gente o faz.

Da mesma forma, vejo agora a educação do meu filho. Ele tem quatro anos e meio e, como costumo dizer, agora tem tudo a que tem direito.

Faz-me sentido 
que o meu filho viva o dia a dia com as suas próprias rotinas, básicas para que o mundo faça sentido. O mundo não é dividido em matérias, está tudo interligado.

Dar oportunidade à criança para observar, admirar, questionar, desfrutar, relaxar e aprender.

Estar sempre perto e disponível para o atender, responder, explicar, disciplinar, corrigir, guiar, compreender. Para observar, acompanhar e desfrutar de todas as facetas de crescimento do meu filho, sendo a pessoa que o conhece estreitamente, sabendo que ela confia em nós e que sou eu o seu suporte de segurança, confiança e defesa para formar e ajudar a construir a sua estrutura interior, como futuro adulto íntegro e consciente do mundo que o rodeia e com as melhores ferrramentas para poder interagir, participar, colaborar, construir o mundo que o rodeia e ele deseja.

Não me faz sentido que não seja eu, principalmente, e o pai, a fazer o acompanhamento e seguimento estreito das necessidades do meu filho.

Que ele seja colocado em situações que não lhe dizem respeito e que não escolheu por livre decisão.

Ser submetido perante um grande grupo, no qual a sua opinião e necessidades afetivas não são tomadas em conta, ficando em desvantagem com o número de crianças que a rodeiam.
 Não poder escolher o que gostaria de fazer.

Não ter ninguém em quem confiar e se sentir amparado diretamente, na maior parte do tempo no seu dia a dia, pois passa esse tempo “fora” de casa.

Não me faz sentido que a criança tenha um dia a dia sem sentido.[/expand]

[expand title=”A primeira vez que ouvi falar em «homeschooling» foi através de sites e de blogues estrangeiros que comecei a visitar assiduamente pouco depois do nascimento da minha filha. Comecei então a interessar-me pelo assunto, comprei livros para me informar melhor e troquei impressões com outras pessoas através desses mesmos blogues. Mas, por pura ignorância, e como acontece com a maioria das pessoas, estava convencida de que esta opção não era permitida no nosso país.”] Permaneci ignorante durante algum tempo até que um dia recorri ao meu precioso Google, escrevi «homeschooling Portugal», e descobri um fórum sobre ensino doméstico, descobri pessoas interessadas no assunto e pessoas que praticavam o ED em Portugal, opção que afinal existe na nossa lei.

Nessa altura o meu entusiasmo aumentou e comecei a considerar esta hipótese para a nossa filha. A princípio, o meu marido estranhou a ideia mas, depois de se informar melhor, aderiu completamente. E tomámos a decisão em conjunto. São várias as razões que podem levar uma família a optar pelo ensino doméstico. Mas o que eu considero realmente importante é que haja a possibilidade de se optar pelo ensino doméstico.

Há várias vantagens no ensino doméstico. Uma delas é o facto de ser possível fazer um ensino mais personalizado, adaptado às necessidades de cada criança. Sabemos que todas as crianças são diferentes e que não aprendem todas da mesma forma e ao mesmo ritmo. Há também a vantagem de não ser necessário passar demasiadas horas na escola. As crianças passam muito tempo na escola e mais de metade desse tempo não é necessário e é mal aproveitado. Em casa, não é preciso estar tanto tempo sentado a uma secretaria, há mais tempo para brincar e para outras actividades que não estão limitadas pelos horários das escolas. Depois há a questão da segurança, que tanto preocupa os pais nos dias que correm. É evidente que não conseguimos proteger os nossos filhos de todos os perigos, mesmo tendo-os em casa junto de nós. Mas também sabemos que as escolas estão cheias de violência, de álcool, de drogas, de promiscuidade. E não me venham com a história de «temos de mandar os nossos filhos para a escola para se defenderem». Eu pergunto então a quem tem o privilégio de não viver num bairro da lata se não se quer mudar para um desses sítios para saber como é o mundo e aprender a defender-se. Se queremos o melhor para nós, certamente também queremos o melhor para os nossos filhos. Para o meu marido, o que pesou mais na decisão foi sem dúvida a questão da qualidade do ensino e a segurança.

A falta da tal rede de suporte/partilha foi talvez a maior dificuldade que senti. Comunicava com algumas pessoas pela Internet e pelo telefone, fui a uma ou duas actividades com essas pessoas, mas faz falta mais. A mim fez-me falta porque não é fácil viver isto tudo sozinha (e na prática também não tinha muito apoio do meu marido pois ele viaja muito em serviço), sendo criticada por quase todos, e com os receios normais. Embora na maioria das vezes eu me sentisse capaz e confiante, a verdade é que faz falta partilhar com pessoas que sabem do que estamos a falar. À nossa filha, embora nunca lhe tenham faltado amigos (sim, a questão da socialização no ED é mesmo um mito), também lhe terá feito alguma falta amigos que também fizessem ED. Todos nós gostamos de nos relacionarmos com pessoas que partilham dos nossos valores e interesses.

Quanto à maior dádiva do ED foi a alegria e o privilégio de tê-la perto de mim e de vê-la aprender e crescer, não simplesmente como espectadora. Quando as crianças estão na escola, por muito que nos preocupemos e interessemos por aquilo que elas fazem, somos um bocadinho espectadores. Eu estou a sentir isso agora e no entanto estou muito presente e acompanho o que ela faz. Mas não é a mesma coisa. E depois a oportunidade de fazer coisas diferentes, de viajar, de ter experiências diferentes, de fazer voluntariado, de entrar também um pouco no mundo dos adultos o que eu acho saudável. Na escola, as crianças só convivem com outras de idades semelhantes, os únicos adultos com quem se relacionam durante a maior parte do dia são os professores e os auxiliares (aliás, essa está a ser uma dificuldade da nossa filha este ano. Ela entende-se muito bem com os adultos, quer conversar com os professores e auxiliares e não lhe é permitido porque lhe dizem que ela tem de se relacionar com as crianças e não com os adultos).

Relativamente a reacções de amigos e família, foram na maioria negativas, embora também tivéssemos tido algumas surpresas agradáveis, de pessoas que nos apoiaram. Outras começaram por reagir negativamente e com o tempo, começaram a aceitar e até a achar interessante a ideia. Tivemos muitas situações caricatas, mas sobretudo as negativas, o que é triste. Uma vez, por exemplo, a minha filha foi a um café aqui da zona com uns amigos nossos e encontraram umas pessoas nossas conhecidas que aproveitaram o facto de a Catarina estar sozinha para lhe «moerem o juízo» com palpites sobre o ensino doméstico. E uma delas rematou a conversa com um recado para ela dar à mãe: «Diz à tua mãe que ela é uma parva, que não sabe o que está a fazer e que te devia pôr na escola». Para além da falta de educação e de carácter que tal comentário revela, o mais caricato é que veio de uma professora com muitos anos de experiência, com filhos já adultos e muito disfuncionais. Outra situação caricata, de entre muitas que eu poderia referir, quando a nossa filha foi fazer à escola uns testes de preparação para as provas de aferição, a professora, vendo que ela tinha dificuldades com a Matemática, telefonou-me e disse-me que era inadmissível ela apresentar tais dificuldades. Perguntei-lhe porquê e lembrei-lhe que as crianças são todas diferentes, todas têm algum tipo de dificuldade e nem todas são excelentes alunos. Também lhe disse que não fazíamos ED para provar que a nossa filha era melhor que os outros pois trata-se de uma criança como as outras. Perguntei-lhe então se ela não tinha na sua turma alunos fracos a Matemática. Respondeu-me que sim, mas que a culpa não era dela, porque não tinham sido seus alunos nos anos anteriores. Só consegui responder-lhe que estava a chamar incompetentes às suas colegas.

Dicas para uma família a iniciar o ED, só posso dizer que não se isolem, que partilhem experiências, dificuldades, com outras famílias.

A MEL é importante por isso mesmo, porque não acho nada saudável as pessoas ficarem fechadas no seu mundo, escondendo-se de tudo e de todos, vivendo as coisas sozinhas, e quando mostram alguma coisa, mostrarem só o lado positivo como se tudo fosse perfeito no ED. Não é. Mas é partilhando que aprendemos e emendamos o que está errado. Quando comecei, ninguém queria falar muito mas em pouco tempo, já noto muita mudança nesse aspecto. Penso que é importante as pessoas juntarem-se, associarem-se. Muitas vezes diziam-me que tinham medo porque se fizessem muito barulho, o Estado ainda acabava com o ED. Mas se quiser acabar, acaba mesmo. E não é meia dúzia de pessoas escondidas que depois tem voz para defender o que quer que seja.[/expand]

 

[expand title=”Com o nascimento da M. tudo mudou. As prioridades deram uma reviravolta e uma que naturalmente se impôs foi a de estar presente na vida da M. – sempre e até onde fosse possível. Mudámos rotinas e fizemos escolhas que achámos adequadas ao nosso desafio: proporcionar-lhe uma educação livre de horários, de pressões, de doenças esquisitas, de ideias feitas e impostas.”]

Reorganizámos a nossa vida profissional e social, procurando a paz e a disponibilidade ideais. O tempo foi passando, a M. foi crescendo, sempre muito feliz e curiosa com o mundo. Procuramos dar-lhe toda a liberdade e tranquilidade possíveis e o seu desenvolvimento e aprendizagem têm sido maravilhosamente estonteantes.

Entretanto nasceu o J. e com ele a certeza de que era em casa que queríamos estar: não queríamos, de forma alguma, entregar os “nossos” meninos ao sistema nem deixá-los em mãos alheias. Não foi, não é fácil. Toda a pressão envolvente, a radical mudança de vida (de 100% virada para o trabalho a 100% dona de casa desesperada).

Momentos de angústia e até de solidão, mas sempre com a certeza de querer estar presente para os meus filhos, com consciência e responsabilidade. Nesta altura, começámos a descobrir várias pedagogias interessantes, fora do sistema tradicional de ensino, e a Waldorf era forte candidata “para um dia mais tarde”. O tema ensino doméstico era-nos completamente estranho, nem sequer pensávamos muito nisso dada a pequena idade dos nossos filhos.

Entretanto fiquei grávida da J. (estamos quase, quase a conhecê-la!) e, uma vez mais, reformulámos os nossos objectivos e prioridades. Mudar de casa e sair dos subúrbios eram a meta a cumprir. Impunha-se. Sabendo muito bem aquilo que não queríamos, acabámos por nos render a uma casa com quintal, árvores, terra e todas as condições para criarmos o nosso “espaço de amor”.

Os aviões deixaram de ser uma constante para darem lugar aos comboios (menos mal). Aqui a M. conta as estrelas, vê a lua, suja as mãos, apanha laranjas, cai do baloiço e é socorrida pelo B., outro elemento (de quatro patas) da nossa família.

A M. tem agora dois anos e pouco, o J. um e pouco, e são plenamente felizes.

Sem pressas e (com alguns) medos, consideramos o ensino doméstico a opção mais consentânea com os princípios e valores que defendemos. E acreditamos que esta forma de ensino já existe na nossa casa – desde sempre! (“Quando a M. for para a escola já sabe tudo!” – frase de uma das avós).

Enquanto trato da rotina diária doméstica, a M. apre(e)nde tudo! Ajuda-me a (des)fazer a cama, a lavar e estender a roupa, a fazer a sopa e a separar o lixo. Sabe contar até 15 (sem se enganar) e gosta das cores e de fazer os sons dos animais. Devora livros e mais livros, brinca e dorme e acorda quando quer. É feliz. O J. é um sortudo e vai apre(e)ndendo com ela.

Considero estar genuína e verdadeiramente perante o conceito de aprendizagem de Schetinin (obrigada Ana Sofia pelo entusiasmo e inspiração que trouxeste para as nossas vidas).

A M. ensina coisas ao J., e a nós. Todos ensinamos, aprendemos e construímos sem imposições e sem críticas. Deslumbramo-nos e sonhamos. Poder escolher estar com os “nossos” filhos, deixando-os crescer ao “sabor do vento”, e poder proporcionar-lhes uma educação livre, dando-lhes espaço(s) para Ser(em), conhecer(em), criar(em), partilhar(em) é tudo quanto queremos. E o nosso desafio constante: descobrir os “nossos” meninos, vê-los Despertar e, com confiança e consciência, transmitir-lhes confiança e consciência.[/expand]

[expand title=”Cá em casa somos quatro, dois adultos, um menino de dez anos e uma menina de quase dois. Desde sempre nos sentimos um pouco deslocados no tempo… na brincadeira até dizemos que deveríamos ter nascido numa outra época!”]

Com o passar do tempo algumas coisas deixam de fazer sentido… e com o nascimento da nossa filha mais nova conhecemos pessoas que estavam a fazer Ensino Doméstico, e o meu marido disse assertivamente que gostaria que eu fizesse ED com a nossa filhota. Ao ter conhecimento da legalidade da situação, começámos logo a ponderar e a aprender mais sobre esta opção!

Nessa altura fui ter com o mais velho e disse-lhe que era possível fazer o que ele desde cedo me pedia…estar em casa a aprender connosco (algo que ele sempre disse era que aprendia mais connosco do que na escola).

Nessa altura ele saiu da escola e começamos a nossa primeira experiência em ED.

Posso adiantar que entretanto ele apaixonou-se e quis voltar para a escola porque a menina ia para uma escola perto de nós. Respeitámos a sua vontade. Nos dias que correm ponderamos a voltar colocá-lo em ED uma vez que ele próprio já voltou a demonstrar essa vontade e porque vamos fazê-lo com a irmã mais nova.

As pessoas à nossa volta não aceitam muito bem a situação. Mandam algumas indirectas e directas, manifestando que isso é algo disparatado e que estamos a fechar as crianças ao mundo, que vão ficar uns miúdos esquisitos e sem a noção da realidade, sem saberem socializar e sem terem oportunidade de serem “alguém na vida”, ou seja, tirarem um curso e se tornarem “doutores”.

A pressão dos programas educacionais praticados em Portugal e os respectivos exames foram um grande desafio.
É, e sempre foi, difícil tranquilizar-me nesse aspecto.
Sempre acreditei e acredito que cada pessoa tem o seu valor e os professores têm o deles. Não vou substitui-los, mas gostaria que os meus filhos aprendessem o programa, para que esteja sempre aberta a porta caso eles queiram ir para a escola tirar um curso, ou algo do género.
Isso torna-se o maior desafio de todos! Tenho receio de lhes falhar nas dúvidas que possam surgir, as dificuldades deles e as matérias que posso não dominar… Acho que a existência de uma rede de apoio seria essencial! Pois acredito que estar em ED é também aprender com a comunidade e o que eu tenho para ensinar pode ser, e é, diferente do que o meu vizinho tem para ensinar…Tudo junto pode, e deve, fazer parte do “bolo” de aprendizagem para os nossos filhos.

Quando estive em ED com o meu filho tinha apenas uma família com duas crianças da idade dele com quem falava com regularidade, e que partilhavam as experiências deles.
Quanto à rede de apoio, confesso que para mim foi o que mais senti falta! Tudo era novidade e exerci uma pressão enorme em mim para que o meu filho passasse no exame do 4º ano.
Senti falta de um apoio que me tranquilizasse, de conhecimento de causa…
Hoje em dia começo a ver mais famílias a partilharem o mesmo ponto de vista que nós e a quererem optar por ED, o que faz com que se construa uma rede de suporte mesmo que não oficial entre famílias/mães que estejam com as crianças em casa. Estas famílias têm crianças da idade da minha filha ou até aos 6/8 anos. Acredito que para a minha filha esta rede seja muito benéfica, mas preocupa-me se para o meu filho haverá o mesmo…

Mas a maior dádiva do ED para nós foi poder estar com os nossos filhos diariamente.
Mas principalmente passar-lhes os nossos valores e mostrar-lhes que os pais não são aqueles seres que se zangam com os filhos todo o tempo por causa dos TPC’s, por causa do “levanta-te que tens que ir para a escola”, por causa do “despacha-te vais chegar atrasado”, etc…

Uma dica para uma família a iniciar o ED seria: cada família deve pensar bem nesta opção, uma vez que cada vez mais é possível voltar a dar aos nossos filhos o apoio que se dava antes, melhores valores morais, mais liberdade de escolha nos estudos e dar-lhes a oportunidade de darem asas às suas capacidades intelectuais e físicas nas áreas que mais gostarem, em vez de estarem sempre a cumprir programas (de forma exaustiva) que nem sempre vão ao encontro da aptidão de cada criança!

Acredito que com a existência da MEL vai ser cada vez mais possível criar uma rede de apoio entre famílias a todos os níveis.
Acredito que também será mais simples conseguir as informações necessárias para ajudar as famílias a fazerem as suas escolhas.[/expand]

[expand title=”O tema educação tem estado presente ao longo destes anos na minha vida, desde o nascimento da nossa filha tem sido mais pertinente. Na minha vivência, tem sido possível observar e reconhecer o impacto que o Todo tem em nós e, como um só indivíduo e, até, uma simples acção pode influenciar esse Todo, como tudo e todos vivemos interligados.”]

Quando fiquei grávida, sentindo, a cada dia, a nossa filha crescer dentro de mim, apercebi-me da força desta reflexão. Com ela, crescia em mim a intenção e desejo de fluir e colaborar com a Vida de forma consciente e harmoniosa em todas as vertentes de Ser. Esta motivação, move-nos enquanto família na procura de alternativas que consideramos saudáveis, que suportam a dinâmica da união familiar e, nos permite colaborar juntos na construção do presente e futuro que acreditamos e aspiramos realizar.

Fomos reconhecendo o crescimento e mudança que emergem, quando diante de situações desconexas e complexas, encontrámos forma de nos relacionar connosco, com o que nos rodeia e a sinceridade necessária para viver em conformidade com os valores que acarinhamos.

A disponibilidade para uma aprendizagem continua, a abertura para o inesperado da vida que se revela e constrói a cada momento e a vivência diária familiar, com todas as suas conquistas, alegrias, tristezas e desafios fazem parte integral de uma Educação em Liberdade e Responsabilidade que nós, enquanto pais, desejamos partilhar com a nossa filha.

A vida tem-nos colocado diante da necessidade e oportunidade de questionar, nas mais variadas vertentes e direcções e de olhar tudo de novas perspectivas, abrindo-se em nós novas realidades e dimensões. Dadas as circunstâncias da nossa vida estávamos a reestruturar ‘tudo’, o que neste aspecto foi uma mais-valia para testar e reavaliar os nossos ideais. Dedicámos muito do nosso tempo a ponderar possibilidades e a observar o próprio fluir dentro e fora de nós, na busca de encontrar aquilo que nos fazia sentido. Abrimo-nos para toda uma nova experiência que a nossa E., fez em nós amanhecer.

Assumir inteiramente a liberdade pela educação da nossa filha, num espaço onde a possibilidade de Ser é reconhecida e valorizada, de forma descondicionada e responsável. Este, é um desafio que nos desperta inspiração e motivação. Podermos crescer e expandir, aprender e experienciar, descobrir e criar, escutar e observar, errar e aperfeiçoar, sem pressas, a um ritmo natural e não imposto. Conceder e proporcionar as circunstâncias apropriadas para que a E. sinta a tranquilidade para questionar, para conquistar a confiança, a coragem, para que, por si própria, possa investigar e descobrir respostas.

Pela experiência percebo que para verdadeiramente se conhecer algo é necessário dedicação, quer tempo, quer um relacionamento interessado com aquilo que se pretende conhecer. Para pensar e contemplar sobre um assunto é imprescindível espaço e liberdade para aprofundar. Procuramos proporcionar à nossa filha as condições para que os seus potenciais possam desenvolver-se, abrindo e criando espaços, para que, a sua natureza curiosa intrínseca em aprender e descobrir, possa emergir sem preconceitos.

Vejo a Educação Livre como uma partilha de vivência diária em proximidade, de auto-reconhecimento contínuo da nossa natureza espontânea e criativa, brincando e construindo a nossa Vida a cada passo responsável e consciente. Educar Livremente é uma dádiva que podemos oferecer tanto a nós como aos nossos filhos e, acredito que, os seus frutos serão certamente reconhecidos no futuro.[/expand]

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